Ana Maria Coelho Carvalho*
As ruas andaram mais coloridas, e um tanto exóticas, com o novo visual das pessoas usando máscaras para se protegerem do coronavírus. Tinha máscara de todo tipo e pra todo gosto: brancas, pretas, vermelhas, de bolinhas, estampadas, de flores, listradas. Além do uso normal, também eram colocadas no queixo, na testa, no pescoço, dependurada na orelha e no cotovelo. E muitos se atrapalhavam com o seu uso, como uma senhora que apareceu em um vídeo na internet. Estava com uma máscara de listras azuis e comendo uma pratada de macarrão. Enrolou o macarrão no garfo, enquanto olhava para o celular na mão esquerda. Distraída, abriu a boca e enfiou uma garfada de macarrão na máscara! Pois é, até pra usar máscara é preciso ter estilo; tem gente que até conseguia ficar elegante com aquele paninho sufocante tampando o nariz e a boca. Já outros se especializaram em usar os olhos e as sobrancelhas para expressarem todos os tipos de sentimentos, pois agora, mais do que nunca, os olhos são a janela da alma.
Outra consequência da necessidade do uso de máscaras foi a improvisação, como aconteceu no começo da pandemia. Pessoas com máscaras exóticas e criativas foram fotografadas em um supermercado e foi realizado um concurso para eleger a mais original. Nas fotos, via-se uma mulher que colocou um chapeuzinho de aniversário de criança tampando a boca e o nariz; outro furou dois buracos no local dos olhos em um saco de pão e enfiou na cabeça; um senhor de blusa azul cortou uma garrafa Pet de forma estratégica e deu certinho. Já um homem de macacão branco usou uma máscara de borracha na forma de uma cabeça de cavalo. Uma mulher, na moto e carregando as compras, amarrou firmemente uma bucha de lavar prato na frente da boca. Quem ganhou o concurso foi um senhor corpulento que enrolou muito bem um saco cinza de supermercado em volta da cabeça toda (por certo não curtiu o prêmio, morreu sufocado). Eu votaria na máscara de cabeça de cavalo.
Bem, além do visual inusitado com as máscaras, andei preocupada porque ouvi que estavam querendo imprimir dinheiro para fazer frente á crise econômica que atravessamos. Uai, como diria o mineiro, é simples assim? Pode? E a inflação? Sei lá, ando com medo é de voltarmos para a época do escambo. Eu mesma já estou praticando. Dia desses, uma inquilina minha deixou o imóvel e não tinha como pagar a reforma. Como ela tinha algumas coisas que não poderia levar, fiquei com uma cama e uma mesa com quatro cadeiras em troca da reforma. Não sei quem saiu ganhando ou perdendo, o tal de escambo é difícil.
Estou lendo sobre isso no livro “Sapiens”, de Yuval Noah, onde tem um capítulo muito interessante chamado “O cheiro do dinheiro”. O autor descreve desde a época em que os caçadores coletores não tinham dinheiro e praticavam o escambo simples, até o surgimento do dinheiro , capaz de converter quase tudo em qualquer outra coisa, tornando-se o mais universal e eficiente sistema de confiança mútua já inventado. Gostei particularmente de um trecho onde o autor explica as dificuldades e limitações do escambo. Exemplifica assim: um agricultor produz as maçãs mais doces da província. Trabalha tanto que os sapatos desgastam. Enche então uma carroça de maçãs e vai para a cidade-mercado à beira do rio, tentar trocar com um sapateiro as maçãs por um par de botas. O sapateiro fica hesitante porque não sabe quantas maçãs pedir. A última vez que trocou maçãs por sapatos havia sido há três meses atrás. Na época, pediu três sacos da fruta. Mas eram maçãs ácidas e o sapato era feminino, não era uma bota. Além disso, nas últimas semanas uma praga dizimou os rebanhos e o couro estava escasso, os curtumeiros estavam trocando a mesma quantidade de couro pelo dobro do número de sapatos. O sapateiro pensa que isso deveria ser levado em conta, mas não sabe calcular. Além do cálculo, o escambo tem outros problemas. Ambas as partes precisam querer o que o outro tem. E se o sapateiro não gosta de maçãs e se o que ele quer mesmo é um divórcio? O agricultor até poderia encontrar um advogado que gostasse de maçãs e fazer um acordo a três. Mas e se o advogado estiver cheio de maçãs e estar precisando mesmo é de um corte de cabelo?
Enfim, difícil demais o tal de escambo, melhor mesmo o dinheiro. E quanto às máscaras, ao lado da água com sabão e das vacinas, se mostraram armas poderosas nesta guerra contra o coronavírus, que felizmente estamos vencendo.
*Bióloga – Uberlândia – MG – anacoelhocarvalho@terra.com.br