Gustavo Hoffay*
Religião e política não se misturam e o Brasil – constitucionalmente – não tem uma religião oficial, ponto; ou seria ponto e vírgula? Talvez coubesse aí a conjunção coordenativa “mas”! Sim, afinal em nosso país há crucifixos pendurados em câmaras onde acontecem reuniões deliberativas do poder legislativo de municípios e estados, mesmo em plenários do Congresso Nacional e em diversas outras repartições públicas. Se na maioria daqueles recintos está presente a Cruz -o mais conhecido e um dos mais respeitados símbolos do cristianismo, o mínimo a esperar-se de todos ou ao menos da maioria das pessoas que ali exercem as suas respectivas funções laborais, seria o respeito mútuo e uma alta dose de comedimento, aceitação e humildade no trato de assuntos diversos e relacionados à coisa pública, evitando-se ainda danosas influências de fiéis de alguma ou outra crença religiosa sobre assuntos oficiais, de modo a manter-se o distanciamento da prática e adoração religiosa em relação a todo e qualquer assunto pertinente à administração pública federal. Francamente…! O poder público não pode e não deve privilegiar uma religião sobre qualquer outra; há que tratar todos os cidadãos de maneira igualitária e independentemente da escolha religiosa de cada um pois, caso contrário, teríamos um país submisso à vontade de alguns membros de poderes oficiais e que, de maneira audaciosa, teriam em mente a afirmação da promoção e do crescimento de suas crenças religiosas sobre os seus governados. Atualmente circulando por órgãos públicos em Brasília, qualquer sensato cidadão tem a nítida impressão de estar no interior de alguma instituição religiosa e que há muito almejava assentar e perpetuar-se no comando da nave Brasil, enquanto usando de habilidades para conquistar cargos e exercer funções politicamente poderosas e sem, entretanto, os seus dignitários não demonstrarem um mínimo de qualificação técnica necessária para tal fim. Nunca, em nosso país, qualquer religião exerceu tanta influencia quanto agora, para que autoridades constituídas aprovassem a indicação de alguém, terrivelmente crente, a algum cargo de alta relevância no governo federal e da forma como foi em relação ao pastor André Mendonça, um fervoroso presbiteriano ungido por Bolsonaro e abendiçoado pelo Congresso Nacional, para vir a ocupar um dos tronos da Suprema Corte Brasileira. Muito maior que as bancadas ruralista, sertaneja, militar, futebolística e artística juntas, a representação evangélica no Congresso Nacional é mais um grande passo para que seja concretizado o sonho de (mais) poder de alguns destacados líderes religiosos e para os quais a Bíblia, na vida política brasileira, é muito mais importante que a nossa própria Constituição e da forma que o alcorão o é para os muçulmanos. Influentes religiosos juram -de pés juntos- o seu desejo de tomar o poder por inteiro, enquanto Bolsonaro jura ser católico e embora o seu casamento tenha sido celebrado pelo pastor Malafaia (líder da Igreja Assembléia de Deus Vitória em Cristo) e batizado nas águas do rio Jordão pelo pastor Everaldo Dias Pereira, presidente do Partido Social Cristão e que na justiça já respondeu por acusação de liderar um dos grupos que compunham uma “sofisticada organização criminosa”, apontada de “desviar recursos públicos e realizar a lavagem de capitais, dentre outros crimes”. Não resta dúvida de que influentes religiosos estão sendo escolhidos e nomeados para ocupar postos estratégicos nos três poderes, de maneira a tornar realidade o que profetizou o bispo Thomas Nelson em seu livro “Plano de Poder”. O ativismo religioso no Plano Piloto da capital federal, mais especificamente na Esplanada dos Ministérios e nos suntuosos palácios da república é explícito, crítico e perturbante; vem servindo para demarcar posições e de forma a tornar-se soberano onde , antes, os seus próprios líderes chamavam de “playground do diabo”. Hoje o que para eles era satânico e operado por tinhosos servidores até a eleição do atual ocupante do Palácio do Planalto, tornou-se em fértil paraíso para uma contínua e atrevida afirmação da sua crença, enquanto alimentado pelos cofres abastecidos por polpudas quantias originadas de cidadãos das mais variadas crenças religiosas. É o apostolado político firmando-se cada vez mais sobre sólidas bases evangélicas. E valha-nos Deus!
*Agente Social – Uberlândia-MG