Marília Alves Cunha*
“Uma mentira dá uma volta ao mundo antes mesmo de a verdade ter a oportunidade de se vestir.”
Winston Churchil
Dia desses fui advertida pelo Facebook, devido a um comentário. Explico: tenho a mania de usar a palavra delícia. Tudo que é bom, para mim é uma delícia. Pois bem, usei esta palavra referindo-me a uma publicação, de maneira a mais tranquila, sem nada de malícia. Na mesma hora advertiram: meu comentário não estava de acordo com as normas de conduta da comunidade. Não fiquei furiosa, nem mesmo chateada, ficar furiosa prá que, reclamar para quem? Comecei a rir. Lembrei-me de fato passado, se não me engano nos idos de 1975,1976. Escrevi um texto para um jornal e usei a palavra “boicote”, necessária ao contexto. Passados alguns dias fui procurada por um amigo de meu pai, autoridade na época, que tinha relações bem próximas com o pessoal do exército. Ele me disse, na ocasião: “Cuidado com o que você escreve, pois ia ser chamada a prestar esclarecimentos sobre o texto. A minha interferência permitiu que a coisa não prosperasse”. Fiquei embasbacada! O texto nada tinha que pudesse levantar qualquer tipo de suspeita sobre a minha pessoa. O problema era a palavrinha usada, apenas isto! Fiquei imaginando um censor sem inteligência ou preparo suficiente para separar alhos de bugalhos.
Hoje, em nosso amado país, a censura volta à cena. Ela acontece por obra e arte dos que se dizem politicamente corretos, vestais dos tempos modernos que se consideram legítimos e perfeitos senhores da verdade e do conhecimento, sempre dispostos a vomitar normas e regras e imaginar que todos tenham a obrigação de seguí-las, sob pena de serem cancelados… O caso de Alexandre Garcia que ousou dar sua opinião num programa chamado “Liberdade de opinião” e o de Maurício Souza são típicos. Também por parte dos que se julgam e afirmam alto e bom som serem editores da sociedade e prometem severas sanções a quem ousar contrariar sua vontade, seus conceitos e suas afirmações. Idem, para os que se atreverem a questionar, duvidar, contrariar, opinar ou simplesmente tocar em assuntos considerados inconvenientes. Você pode ser considerada uma pessoa perigosa, antidemocrática, criadora de Fake News, inimiga das instituições, acintosa ao direito e à justiça. Firulas jurídicas fazem este milagre… Temos hoje pessoas censuradas e até presas ou exiladas, por acreditarem que o artigo 53 da CF estava em vigor. E quantos se recolheram perante este patrulhamento, receosos naturalmente de serem mal compreendidos…
Sempre falta à censura um naco de inteligência. E mesmo se não faltasse, mão existe crime em expressar-se, emitir opinião, pensar diferente de outros. Não podemos viver sadiamente na certeza de que apenas assuntos autorizados podem fazer parte do nosso rol de conhecimento ou assentimento. E esperamos que, réstias autoritárias de de um passado próximo ou remoto, não sejam poderosos a ponto de controlar a informação e, consequentemente, a nossa vida. Que os parlamentares de carne e osso exijam, como um dos poderes da República, que a lei seja cumprida ou parem de fazer leis e entreguem a outrem esta função.
*Educadora e escritora – Uberlândia – MG