Marília Alves Cunha*

A menininha, meiga e tranquila nos seus cinco anos, adoeceu de repente. Assim, sem mais nem menos, uma névoa obscureceu a vida da pequena criatura, empalideceu seu rosto, roubou o rosado dos lábios, turvou o olhar inocente que mal começava a se abrir para a vida. O sorriso permaneceu. A menininha nunca deixou de sorrir. Era sua marca registrada, traço de meiguice e ternura a tentar dizer para os que a amavam: fiquem calmos, estou bem. Poucas palavras, gestos tímidos, sobriedade impressionante para lidar com a dor e o sofrimento.

A doença teceu laços fortes entre mãe e filha. As palavras tornaram-se desnecessárias, quase inúteis, os gestos se multiplicaram, a troca de olhares transformou-se em moto contínuo, total compreensão instalou-se definitivamente nas suas vidas. Vidas que se tornaram um gostoso afagar de mãos teimosas a se procurar, busca de beijos, abraços, carinhos, forma maior de dizer do amor, de indagar e responder.

Aquela criança, tão pequena e frágil ensinava todos os dias, a cada dia uma lição: a vida merecia ser vivida, mesmo tecida a sofrimento, mesmo alternada entre o bom e o mau tempo. A ordem era curtir os momentos felizes, aproveitá-los descaradamente e chegado o mau tempo, enfrentá-lo com coragem, como um desafio. Conquistar terrenos em grandes e pequenas batalhas, acreditar que a guerra nunca estaria perdida. A menininha ensinava, a todo momento…

Um dia, depois de vencida mais uma batalha, mãe e filha foram visitar uma amiga querida. Esta, já tendo os filhos crescidos, entornou no chão um saco de brinquedos, uma verdadeira apoteose de cores e formatos, lembranças guardadas com carinho de seus pequenos… Era brinquedo de toda a espécie. Bonecas lindas, mimos italianos de fazer brilhar o olhinho de qualquer menina. Panelinhas, móveis em miniatura, uma perfeição de detalhes apaixonantes. Bichos de pelúcia variados, de todas as cores e tamanhos, um mais bonito que o outro, convidando ao abraço, ao aconchego, ao carinho, ao encantamento.

No meio de todo aquele colorido, quase desaparecido, um ursinho, o menor, de cor marrom já esmaecida pelo tempo. Um dos olhinhos teimava em saltar, gaze enfaixava uma das pernas, o corpinho coalhado de cicatrizes, todas paciente e perfeitamente costuradas. A chave nas costas indicava que um dia tivera corda, mas o som se perdera no meio da ferrugem e do desuso. Parecia um personagem saído diretamente da guerra, tão mutilado, tão destroçado. Destoava por completo da maravilha que se apresentava diante dos olhos.

Foi este o escolhido da menina. Ela o acolheu em seus braços, apertou-o junto ao coração e olhou para a mãe, como a pedir amparo em sua escolha. O olhar da mãe respondeu de imediato, a menininha levantou-se do chão abandonando o mar de brinquedos e agarrou-se ainda mais ao bichinho, amarrotado e costurado. Uma espécie de afinidade juntou mãe, filha e ursinho naquele momento. A menina, de poucas palavras, gestos tímidos, pôs a mostra o coraçãozinho anarquizado que ela procurava esconder, para que a beleza da vida se mostrasse mais forte, para que as coisas boas ficassem em ressalto, para que o sorriso permanecesse, além dos olhos tristes e da face sem cor. Os três, menina, mãe e ursinho roto se abraçaram, num impulso que apenas eles entenderam. Eram vidinhas anarquizadas que lutavam para sobreviver. A menininha ensinava… e quanto!
PARA RENATA, COM SAUDADE.

*Educadora e escritora – Uberlândia – MG