Primeiro roubaram a luz, depois o túnel, agora querem roubar o nosso futuro!

Rafael Moia Filho*

“Quem se senta no fundo de
um poço para contemplar o céu,
há de achá-lo pequeno”
Han Yu.

Nestes últimos trinta e poucos anos tivemos uma sequência de governantes que deveríamos apagar da nossa história enquanto Nação. Da vitória de Tancredo no colégio eleitoral aos dias atuais, o nosso país perdeu um tempo precioso que jamais será recuperado no sentido de ter se tornado uma potência mundial, ou na pior das hipóteses um dos países mais fortes entre os chamados em desenvolvimento.
Jogamos no lixo todas as possibilidades que tivemos ao não fiscalizarmos nem participarmos ativamente da vida política nacional, nos limitando a votar, cometendo um erro crasso, que nos custa justamente o preço do atraso e do subdesenvolvimento em que estamos no estágio atual perante o mundo moderno.
Nossa indústria está atrasada e sucateada, sem condições de competir com os países da Europa, Ásia e América do Norte. Nossas riquezas saem para o exterior a preço de banana. Exportamos matéria prima e depois compramos a preço de diamantes os produtos finais produzidos pelos países ricos.
Não temos controle algum sobre nossas fronteiras em nosso vasto território continental. Nosso setor pesqueiro carece de investimentos e nem no turismo podemos nos orgulhar de algum avanço, mesmo sediando grandes eventos mundiais e tendo belezas naturais incomparáveis.
A violência que é fruto das péssimas gestões e do descaso para com a Educação e a saúde pública, hoje alcançou níveis insuportáveis em toda área urbana do país. Nossas leis são antigas, o código penal é retrógado e mantém penas brandas para crimes hediondos, além de benesses que incentivam a criminalidade em todos os cantos.
Nada que é feito dentro dos governos nas três instâncias do poder executivo (Municipal, Estadual ou Federal) leva em conta o bem estar da sociedade e o futuro da Nação. As privatizações ao invés de reduzirem a participação do Estado serviram apenas para engordar contas de políticos em paraísos fiscais e deixar empresários milionários com as aquisições de grandes empresas por preços subfaturados em editais manipulados e suspeitos.
Prova é que estamos vivendo um colapso no setor elétrico nacional, perdemos muitos recursos minerais e não investimos praticamente nada em Educação, Saúde, Saneamento Básico, Habitação e Segurança Pública com os recursos oriundos das vendas das estatais.
As nossas rodovias são do tempo do império, muitas ainda sem capa asfáltica e intransitáveis por onde passam boa parte do escoamento da nossa safra agrícola. Nossas hidrovias são parte de um projeto tímido, sem os devidos investimentos, talvez por conta da força do setor automobilístico que não quer perder o filão da venda de seus caminhões para as barcaças.
Ainda no setor logístico, vimos depois da posse de FHC em 1995, o completo sucateamento do setor ferroviário no país. Um dos meios mais seguros e econômicos para o transporte de cargas foi destruído pela infeliz estratégia do grão tucanato no período de 1995 – 2001.
Para piorar, nenhum outro país tem a classe política tão ruim, tão corrupta e incapaz que o Brasil. É certo que, nosso povo carente de educação e de informação, não leva a sério a democracia, pensa erroneamente que votar é o começo e o fim do processo. Não cobra, não fiscaliza e a tudo releva. Discute apenas os candidatos a presidência, quando deveria dar valor a todos os cargos eletivos que são colocados em votação.
A cada novo pleito, percebemos que não há mudanças, os nomes colocados à prova são frutos da maquiavélica máquina partidária engendrada por um grupo grande de interessados em manter as coisas no nível bem baixo e distante da luz e da justiça.

*Administrador de Empresas e Jornalista

O radicalismo não tem limites

Cesar Vanucci *

“A salvação do homem não vem do leste nem do oeste, vem do Alto.”
(Tristão de Athayde)

Usei, em fala recente, a expressão “radical fanático”. “Isso é pleonasmo!” – anotou, de pronto, estimada amiga, presença realçante em atividades voltadas à defesa da democracia e direitos fundamentais. O papo girava em torno dos destemperados posicionamentos de indivíduos e grupos radicais, de diferenciados matizes, que vêm dando o “ar da graça” no conturbado cenário brasileiro, botando pra fora, em gestos e vociferações raivosos, suas propostas incendiárias.

A sinalização dos “façanhudos atos” dos extremistas de carteirinha revela-se abundante. Nas redes sociais, o pessoal deita e rola. Os radicais realimentam o febeapá de que falava o irreverente Stanislaw Ponte Preta. Mas, mais do que isso, lançam no ar mal estar e desassossego sociais. Propagam falsidades, constroem versões insanas de histórias em evidência, falsificam dados, deturpam as coisas, fazem de tudo para implantar a inquietação nos lares e nas ruas. Não enxergam limites nos nefandos propósitos. Tentam intimidar autoridades envolvidas em investigações criminais; agridem verbalmente e fisicamente pessoas de cujos pontos de vista discordem; picham fachadas de prédios e obstruem acessos rodoviários em retaliação contra decisões que lhes desagradem; disparam tiros contra veículos que conduzem caravana de dirigente político em campanha eleitoral; até mesmo, no auge da paranoia, eliminam vidas preciosas, como sucedeu no caso da destemida vereadora carioca e assessor, um atentado que comoveu a Nação sem solução à vista, pelo menos até o momento em que estes escritos são datilografados.

Entre vários outros lances de natureza radical há um episódio recente, no mínimo intrigante, não noticiado pela grande mídia com o alarde de que se faz merecedor, carecedor ainda de esclarecimentos suficientes por parte das autoridades, compreendendo declarações ameaçadoras confusas, de origem não identificada, interceptadas pelos serviços de escuta do tráfego aéreo durante a operação do voo que transportava o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva a Curitiba, no cumprimento da ordem de prisão determinada pela Justiça.

Tudo quanto dito acima, amostra representativa de condutas radicais produzidas – repita-se – por extremistas de diferentes falanges, antagônicas, com toda certeza em não poucos posicionamentos, configura febril atividade de um punhado de indivíduos e núcleos empenhados em promover estragos de proporções. É certo que as lateralidades ideológicas incendiárias, em suas distorcidas percepções das coisas do mundo, pouco se lixam para os sentimentos das ruas. Sabem-se insignificantemente minoritárias, mas persistem na ilusória concepção de exercerem “redentora missão” como “salvadores da pátria”. Sentem ojeriza da democracia. Renegam as liberdades fundamentais, as aspirações de paz que palpitam nas mentes e corações. Não se preocupam nadica de nada com a circunstância de que a sociedade abomina pra valer suas desconstrutivas proezas. Para o extremista fanático (olha o pleonasmo aí, de novo) quanto pior, melhor.

Muita gente supõe equivocadamente que os radicalismos de inclinações rotuladamente opostas não encontrem ponto de conciliação em suas trajetórias. O denominador comum do ódio, carregado pelos adeptos nas vísceras, torna todos eles, todavia, mais próximos do que imagina nossa vã filosofia. A história está recheada de exemplos. Mussolini bandeou de lado ao virar ditador fascista. Hitler e Stalin, no começo da segunda guerra mundial, firmaram um pacto de não agressão que levou à partilha da Polônia, antes que ocorresse a invasão malsucedida das tropas alemãs ao território russo, que resultou na reversão dos rumos do conflito.

Anos atrás, fiquei conhecendo pessoas de nacionalidade húngara que encontraram abrigo no Brasil quando da odiosa perseguição nazista aos judeus. Eles haviam retornado de uma viagem à terra natal. Confessaram-se atônitos: radicais bastante conhecidos no passado da repressão do nazismo continuavam firmes nas rédeas da repressão em nome do comunismo.

E, por derradeiro, como sugestão a uma reflexão, um conceito lapidar, de permanente atualidade, transmitido por ninguém mais, ninguém menos, que Tristão de Athayde: A salvação do homem não vem do leste, nem vem do oeste. Não vem dos lados. Vem do Alto. Outra frase magistral: “O radical é alguém com os pés firmemente plantados no ar.” É de Franklin Delano Roosevelt.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Não dá para manter isso aí, viu

Percival Puggina

Esclarecendo um pouco mais a expressão acima, utilizada anteontem no artigo que pode ser lido aqui: ninguém neste país, tanto quanto o Grupo Pensar+ e, especialmente, o amigo pensador Gilberto Simões Pires em seu pontocritico.com, advertiu para o que iria acontecer com a economia brasileira se a reforma da Previdência não fosse aprovada.
Não foi por falta de evidências nem de reiterados avisos que o Congresso Nacional cometeu, por maioria, a imprudência de deixar como está para ver como fica aquilo que não pode ficar como está e já se vê como está ficando. A teimosa e insistente advertência do amigo Gilberto induz a uma nova aplicação das muitas paráfrases suscitadas pela famosa gravação de Michel Temer: não dá para manter isso aí, viu? Um país pobre, uma economia estagnada, instituições levadas às barras dos tribunais, não pode manter, para sua previdência social, padrões que sequer as economias ricas suportam.
Esse modelo institucional está, ele mesmo, exigindo uma reforma que também não acontece. Já não falo nas patacoadas do STF. Refiro-me ao fato de que o Congresso Nacional iniciou o biênio do governo Temer apoiando as boas iniciativas apontadas pelo presidente e as deixou ao léu quando a imagem moral do mandatário, como num mecanismo de vasos comunicantes, nivelou-se com o padrão do legislativo. Nesse momento, a base foi se afastando de Temer para não “macular” sua própria imagem…
Dá-me forças para viver! O roto se constrange com a companhia do descosido e a nação que se dane. Displicentemente, empurram-se as reformas para o ano que vem, onde passarão a depender da composição do Congresso e de quem tenha sido eleito para ocupar a presidência. Diga-me o leitor: qual outro empreendimento humano se deixa conduzir mediante rituais tão desengonçados e desestabilizadores?
Quando tantos consideram que a reforma da Previdência é uma perversidade; que a reforma trabalhista é uma supressão de direitos; que a responsabilidade fiscal é uma submissão aos padrões neoliberais; que a queda da inflação, dos juros e o fim da recessão nada significam, somos obrigados a deduzir que bom, mesmo, deve ser a economia parada, os 13 milhões de desempregados, e o horizonte de incertezas em que nos deixou o governo petista. No fim do voo da galinha, aliás, pode faltar dinheiro para todo mundo.

* Percival Puggina (73), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil, integrante do grupo Pensar+.

Retalhos da infância

Ana Maria Coelho Carvalho

Como escreveu Cora Coralina, nós somos feitos de retalhos, de pedaços coloridos de cada vida que passa pela nossa e que a gente vai costurando na alma. Nem sempre são felizes, nem sempre são bonitos, mas sempre acrescentam e fazem a gente ser como a gente é. Em cada retalho, uma lição, um carinho, uma saudade, uma lembrança que nos torna mais pessoas, mais humanos, mais completos. E de retalho em retalho nos tornamos um imenso bordado de nós mesmos.
Na minha colcha de retalhos, os que mais gosto são os acrescentados pelas crianças da minha vida. São retalhos bem coloridos, divertidos, originais. Por exemplo, um retalho recente acrescentado pela Lia, minha netinha de sete anos que mora nos States. Ela é uma artista, faz desenhos e artes incríveis, combina as roupas como uma estilista, faz cartões lindos todo dia para o pai, enfeita a casa com bilhetes coloridos, faz toucas e cachecóis de crochê, uma graça. Mas acontece que agora ela perdeu seu primeiro dentinho de leite. No começo, com o dente bem mole, estava entusiasmada esperando a chegada da fadinha do dente que iria pegar o dentinho debaixo do travesseiro e trocar por uma nota de cinco dólares. No entanto, quando a fadinha chegou na calada da noite e fez isso mesmo, caiu em prantos . Queria o dentinho de volta para guardar para sempre. Daí, tentou cativar a fadinha e fez um tipo de altar pra ela, com flores, guloseimas, bugigangas e escreveu uma cartinha (com alguns errinhos de inglês) pedindo o dentinho de volta. A fadinha aceitou.
Depois, foi a confusão do terrário. Tudo começou quando estive lá e construímos a três (ela, o irmão Enzo e eu) um terrário fechado para observar aranhas, minhocas, insetos, a formação da chuva, as plantinhas crescendo. Adoravam coletar os animais e colocar dentro, mas a Lia ficou com pena das minhocas, remexeu a terra e soltou todas. Antes, fez uma casinha de folhas e barro para elas. O Enzo ficou indignado. O problema piorou no dia em que foram ao parque e encontraram um besouro bonito, grande, preto luzidio. O pai teve que carregar o besouro na mão por vários quarteirões. A Lia não quis colocar o inseto dentro do terrário, preferiu montar um local para ele, decorado com pedrinhas, flores e grama. O Enzo ficou bravo novamente. A mãe foi apaziguar a briga e dar uma olhada no besouro, todo confortável no seu recanto florido. E, surpresa, na verdade era uma barata, e das grandes! Foi a vez dela ficar brava e indignada com o marido, que nem conhecia uma barata e levou uma pra dentro de casa. Ele ficou com nojo de ter carregado a barata na mão. A Lia caiu em prantos novamente porque não queria que matassem a barata. Ânimos acalmados, optaram por soltar a barata no parque onde a haviam encontrado.
A minha outra netinha de sete anos, Maíra, também é uma graça e sempre acrescenta retalhos coloridos na minha colcha. No almoço do último dia das mães, estávamos quatro mães reunidas para tirar a foto clássica, quando ela chegou rápido e se posicionou bem na frente do grupo para sair na foto. A turma mandou ela sair, pois não era mãe . Ela respondeu que era futura mãe e não arredou pé, foi a mais sorridente do grupo.
E tem também as crianças dos vizinhos, dos parentes, dos amigos. São muitos retalhos coloridos. Lembro-me de uma vizinha que tinha quatro meninos. Um deles era meu amiguinho inseparável. Um dia, a filha pequena de uma amiga da vizinha estava tomando banho no chuveiro . Ele ficou olhando escondido a menina peladinha. A mãe o pegou no flagra e disse: “Mas que coisa feia!” E ele, com os olhinhos brilhando: “Não é feio não, mamãe, é só um rachadinho assim…” E fez um sinal vertical com a mãozinha, de cima pra baixo.
Enfim, parafraseando a poetisa, é assim mesmo que a vida se faz, de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E nunca estaremos prontos e acabados, pois sempre haverá um retalho novo para se adicionar à alma.

Educadora – Uberlândia – MG – anacoelhocarvalho@terra.com.br

Explosão social surgirá com manifestações de fome

J. Carlos de Assis*

As manifestações populares que temos visto nos últimos anos, em geral de cunho limitado mesmo quando envolveram a presença carismática de Lula, não enganam quem procura perscrutar com maior cuidado os desdobramentos futuro da história. Há uma crise sem precedentes na República, com total derretimento das instituições, e em especial das instituições políticas. Mas ainda não há fome generalizada: as estruturas do Estado e o setor produtivo ainda funcionam. Precariamente, mas funcionam.
Breve não funcionarão mais. Pelo quarto ano seguido sofremos uma contração brutal na economia. O desemprego avança para 14% da população economicamente ativa. Ainda não é um desastre absoluto devido ao funcionamento daquilo que os europeus chamam de “estabilizadores automáticos”, isto é, os gastos orçamentários obrigatórios do sistema de bem-estar social. Ora, o Governo quer reduzir esses gastos e fez até mesmo uma emenda constitucional para congelar o orçamentário primário em 20 anos.
A evolução do PIB é uma média. É óbvio que os mais ricos ficam acima da média, enquanto os pobres ficam abaixo. Portanto, na recessão, estes últimos se defrontam com uma realidade muito mais dura em comparação às classes médias e altas. Depois de tanta contração do produto, a renda vai sendo espremida e, no limite, acaba. A primeira linha de resistência é a família: pais aposentados que passam a sustentar os filhos, filhos que tem a sorte de se empregarem e passam a sustentar a família. Sem maiores esperanças.
Ou com esperanças vãs. É nesse contexto de quase miséria, para muitos, que serão disputadas as eleições deste ano. Teremos dois tipos de eleitores. O grupo da abstenção, do voto nulo e do voto branco, e o grupo que acredita de alguma forma que a eleição pode ser um instrumento de mudança a favor do povo. Na Grande Depressão dos anos 30, o intervalo entre o início da crise e a tomada de medidas firmes para superá-la durou aproximadamente quatro anos. A redenção foi o New Deal nos Estados Unidos. Na Alemanha deu Hitler.
Com a economia em degradação, não é difícil prever o fracasso do neoliberalismo e o início de demandas desesperadas por comida. Nas ruas do Rio proliferam os brechós dos pobres, gente trocando peças miseráveis de roupa para procurar fazer com que sobre algum dinheiro na troca. Vi uma estatística segundo a qual o aumento do número de camelôs na cidade nos últimos anos chegou a cerca de 700. A exibição da miséria prolifera em todos os bairros, pobres ou ricos. A cada esquina somos visitados pela pobreza.
Os registros históricos das revoluções de massa, a francesa no século XVIII e a russa no século XX, apontou como ponto de eclosão a falta de comida. Obviamente que, na situação atual brasileira, enquanto o Estado se mantiver estruturado e os supermercados funcionando, não faltará pão. Faltará, sim, dinheiro para comprá-lo. O efeito será o mesmo. Entretanto, o povo saberá apontar os culpados pela degradação. Dirá, são os políticos; como se dizia na Argentina depois do desastre de Menem e começa a se diz agora no Brasil.
O motivo do desastre não é corrupção. Corrupção é um problema da polícia e da Justiça. A razão do desastre é a negociação do voto parlamentar em proveito de interesses escusos, sobretudo do capital financeiro e do grande capital. Acaso o povo faminto, quando se aperceber de sua tragédia, deixará impune o parlamentar que deu cobertura aos bancos que cobram juros de mais de 300% ao ano? No pico da crise, alguém pagará por ela. Ou pela guilhotina, ou pelo poste.
É em função dessas considerações que estamos organizando o Movimento pela Democratização do Congresso Nacional. Queremos reunir um grupo de candidatos ao Parlamento comprometidos efetivamente com a superação da crise e a defesa do interesse nacional. Estamos propondo um decálogo de compromissos desses candidatos. E vamos promover debates em todo o país para estimular a participação do povo nesse movimento. Visite nosso site, onde há mais explicações: www.frentepelasoberania.com.br

*Professor de Economia e jornalista. Autor dos livros: A Chave do Tesouro: Anatomia dos escândalos financeiros: Brasil, 1974-1983; Os Mandarins da República: Anatomia dos escândalos na administração pública, 1968-1984; A Dupla Face da Corrupção e Os sete mandamentos do jornalismo investigativo.

No tempo do cinema falado

Antônio Pereira da Silva*

“O cinema falado é o grande culpado da transformação…” – dizia Noel Rosa no velho samba “Sem tradução”, saído nos princípios dos anos 30 do século passado.
É claro que o cinema é falado até hoje, mas a expressão evaporou-se e quando se fala nela é lembrando a chegada do cinema com som ao Brasil, mais ou menos na época do samba de Noel.
Em Uberlândia, ele chegou em 1930 quando só tínhamos o Cine Avenida, da empresa J. Peppe & Cia. O “Cia” era o empresário Joaquim Marques Póvoa.
José Peppe era filho do italiano Carlo Peppe e dona Josephina Peppe. Chegou a Uberabinha em 1916 e foi trabalhar no armazém do Póvoa que ficava onde é o INPS, na praça Clarimundo Carneiro. Póvoa era rico, dinâmico e muito inteligente. Dizem que os Póvoa eram judeus portugueses que emigraram à procura de segurança longe das perseguições européias.
Depois de muitos anos fazendo a contabilidade do Póvoa, Peppe propôs-lhe um negócio: instalarem um cinema na cidade que andava desprovida desse divertimento.
O português topou e construiu o Cine Avenida, onde foi depois o Cine Bristol.
A inauguração foi em 1928 com o filme “Ben Hur”, estrelado por Ramon Novarro. Eram 14 longas partes e o filme… era mudo!
Foi um sucesso!
A questão do filme mudo era contornada com música ao vivo. Os cinemas tinham, desde os seus primeiros momentos, uma orquestra para colocar “clima” nas variadas cenas.
No cine Avenida, a orquestra tocava, antes da exibição do filme, numa espécie de “mezzanino” que havia na Sala de Espera. Quando o filme ia começar, lá iam os músicos enfiarem-se num poço diante do palco para melhorar as emoções das cenas dramáticas.
Entre os músicos da orquestra do Avenida destacavam-se o violinista Bráulio Vieira e a pianista dona Sara. Eles eram casados, trabalhavam juntos e são os pais da atriz “global” Suzana Vieira.
Pois bem, em 1930 chegou o cinema falado e o pessoal das orquestras de cinema ficou sem trabalho.
O cinema falado não era uma coisa tão simples como se possa imaginar. A primeira curiosidade é que o som não vinha gravado na fita, como hoje. Na verdade, o filme continuava mudo, só que as produtoras gravavam toda a trilha, diálogos e ruídos em discos de 78 rotações por minuto. Os 78rpm normais da época, tinham 10 polegadas. Os do cinema eram enormes, maiores que os desativados LPs que tinham 12.
A outra curiosidade é que esses discos eram tocados do centro para a beirada. Curiosa essa inversão, não é? Dada a sua fragilidade, eles vinham protegidos por embalagens metálicas e traziam as indicações de uso que permitiam uma perfeita sincronização da ação com o som. Acompanhavam-nos, tiras de fita com os quadrinhos sem imagem. O objetivo era colá-las no filme em substituição a eventuais cortes feitos para remendar a fita quando se partia ou se queimava. Dessa forma, mantinha-se a sincronia com o som. O auxiliar da cabine de exibição do Avenida é que contava os quadros perdidos e os substituía. Ele devia, também, conferir a fita antes da exibição para ver se não faltava algum pedaço. Faltando completava com a tira negra.
Mesmo assim, aconteciam coisas grotescas. Quando a Mogiana se atrasava e não havia tempo para a conferência, um eventual desencontro entre imagem e som produzia coisas hilárias como um cavalo rinchar quando o cavaleiro falava; ouvirem-se passos enquanto um ator dava tiros; uma voz feminina quando um homem falava, e vice-versa, enfim, tudo o que se possa imaginar de absurdo. Era um delírio para a platéia.
O tempo passou, em meados da década de trinta e um, Ernesto Paglia construiu o majestoso Cine Theatro Uberlândia, com 2.200 lugares, iniciando uma fase de competição entre as salas exibidoras na qual saiam lucrando os espectadores. Mas aí já é outra fase do cinema em Uberlândia, que aliás, já contei, aqui, na crônica “No Tempo do Cinema com Dança”. Fonte: José Peppe Jr.

*Jornalista e escritor

Free WordPress Themes, Free Android Games