Do neoliberalismo ao neofascismo financeiro (I)

Roberto Bueno*

Um dos clássicos e campeões da teoria neoliberal, o economista Friedrich von Hayek (1899-1992) não foi o único a sustentar que “A democracia é o único método de mudança pacífica descoberto até agora pelo homem”. Podemos estar de acordo que a democracia apresente este aspecto positivo, mas o problema radical para o qual Hayek não atentou e que já era presente em seus dias assim como o é nos nossos, diz respeito a resposta sobre quais são as regras de fundo que constituem e realmente definem aqueles grupos que poderão assumir o poder. A resposta a esta pergunta é decisiva na medida em que ela é definidora da virtude central da democracia que, para além da transição pacífica do poder reside no fato da real alternância no poder. A rigor, se não houver real possibilidade de acesso e exercício do poder por diferentes grupos políticos comprometidos com o respeito às regras e sintonia com a vontade popular, então de pouco ou mesmo nada vale que as transmissões de poder se deem pacificamente.
O elogio de Hayek sobre a virtude da democracia tem, portanto, relevância apenas secundária, pois desconsidera o fato decisivo das formas de acesso ao poder, despreza o ponto essencial da questão de que, sem o devido cuidado, sempre os mesmos grupos poderão oscilar no poder, e assim a pacífica transição observada por Hayek nada significa em face de que os poderosos sejamos os mesmos. À partida, a preocupação do liberalismo com a onipotência dos poderosos e, em especial, com o poder do Estado, era algo real e passível de imposição abusiva sobre os indivíduos, e por isto a teorização sobre a representação parlamentar e seus poderes de controle do Poder Executivo foram propostas. Nos dias correntes o cenário é bem outro, pois o seu sucessor teórico, o neoliberalismo, corroeu os mecanismos de controle do poder para tornar factível a migração do poder da órbita da política para a da economia e, por esta via, realizar a consolidação do neofascismo financeiro. Sob esta estratégia a população foi destituída de sua representatividade parlamentar como instância de controle do poder e capaz de servir como elemento de fiscalização dos mais altos poderes do Estado. Isto agora é passado, e do futuro ainda pouco ou nada sabemos.
Hayek reconhece que a democracia apenas pode ser admitida enquanto tal se uma maioria puder formar a sua opinião para além da influência do governo. Mas Hayek comete equívoco ao concentrar o seu temor na esfera de poder que já não era, ou é, aquela que impõe maior temor, pois o governo em que estava a fonte do suposto perigo-mor, hoje com toda a clareza, quem o detém e impõe são as grandes transnacionais, cujo poder desconhece fronteiras, despreza pessoas e determina escolhas de políticas econômicas dos Estados e as políticas públicas de diversas nações. Esta realidade distorce o pressuposto hayekiano de uma democracia, qual seja, que “El ideal de democracia se basa en la creencia de que el criterio que inspira a quienes gobiernan se origina en un proceso independiente y espontáneo”. Nada disto caracteriza este cenário do neofascismo financeiro.
Hayek apresenta como pressuposto da democracia algo que o neoliberalismo jamais poderá oferecer ou cumprir uma vez que não pode abandonar a lógica interna da concentração econômica (e de poder), e que por isto atinge fatalmente o seu requisito da “[…] existencia de una gran esfera libre del control de la mayoría, en la que se forman las opiniones de los individuos”. É este distanciamento que desloca qualquer aspiração democrática do terreno do factível em tempos do neoliberalismo ou de suas versões fascistas-financeiras. Portanto, se realmente aspiramos conhecer os fundamentos da democracia, o primeiro ponto a deter-nos é que o governante precisa estar coberto de suficiente nível de legitimação popular, e em nenhum momento indiferente e alheio a ela. Adotar tal postura implica ressuscitar as instâncias do autoritarismo que com muito pouca insistência e nenhuma cerimônia adentra nos mais sofisticados gabinetes e passa a dominar as ações dos governos subordinados às demandas do neofascismo financeiro.
Argumento típico do neoliberalismo hayekiano e que resulta tremendamente útil para os fins do emergente neofascismo financeiro é o de que a ordem jurídica não é produto de alguém ou de algum grupo identificável. Esta desvinculação do mundo real daqueles que são os atores que o constroem e o habitam traz sérias consequências para a percepção dos sujeitos históricos quanto a sua capacidade de intervenção no mundo. Esta barreira ideológica que evita apresentar-se como tal, e termina por reforçar a percepção de impotência do homem relativamente à sua possibilidade de intervenção sobre o mundo do real e também sobre as instâncias ideológicas alternativas disponíveis para conectá-lo com as chaves de apropriação desta sua grande residência da qual tem acesso restrito a modestas dependências. A reversão da cena depende do fortalecimento coletivo e da compreensão de que apenas juntos somos alguém.
Para o neoliberalismo de Hayek é possível concluir que o verdadeiro apartheid social concretizado pela profunda e pornográfica desigualdade social brasileira é um objeto de todo indiferente. Nesta medida ele serve de base para o neofascismo financeiro que agrava os pressupostos hayekianos, sobretudo úteis aos naturalizar os abismos da desigualdade social sob o argumento de que se trata de uma realidade sem autores ou responsáveis identificáveis. Burdo argumento, pois bem sabemos os brasileiros a quem aproveita este estado de coisas e quem são os manipuladores do Poder Legislativo (inclusive) que extraem a torto e mau direito as normas jurídicas que servem aos seus interesses.
O neoliberalismo político de Hayek assenta em valores compatíveis com o pretenso neoliberalismo econômico contemporâneo, especialmente em seu comum elitismo-fascistóide dos dias correntes revoga. A preocupação desta emergente corrente que transpõe os limites do neoliberalismo é o neofascismo financeiro, que posiciona homens e mulheres como meras estatísticas, para o que o valor do mundo consiste tão somente na contabilidade das empresas e em nenhum caso na percepção de homens e mulheres como seres vivos para além de unidades de produção econômica substituíveis.
Hayek apresenta o argumento de que pode muito bem ocorrer que a intervenção de uma elite bem educada resulte em um cenário econômico e político mais eficiente e, quiçá, ainda dotado de superior justiça do que outro formado por qualquer outro governo escolhido democraticamente. Contudo, é pouco crível que medidas políticas calçadas em padrões de justiça sejam prováveis quando impostas por uma elite burocrática desvinculada da formação da vontade política a partir das instâncias da população. O que não resta bem apresentado como defesa da democracia no texto de Hayek e o distancia de sua defesa é a sua preocupação com o desenvolvimento econômico a expensas das instâncias democráticas, relegadas a um segundo e desimportante plano. Hayek abre a porta para a possível superioridade de “outros sistemas” sobre a democracia, mas que esta, a longo prazo, somada a sua maximização das liberdades, apresentaria os seus benefícios. Contudo, a abertura desta brecha é um grande e sedutor convite para os aproveitadores e oportunistas de plantão abortar a perspectiva libertário-democrática. (segue).

*Professor Universitário.

A quarta revolução

José Carlos Nunes Barreto

“A vida só é possível reinventada/Anda o sol pelas campinas/ E passeia a mão dourada/ Pelas águas, pelas folhas…/Há! Tudo são bolhas/ Que vêm de fundas piscinas/De ilusionismo… mais nada/Mas a vida, a vida, a vida/ A vida só é possível reinventada. ”Cecilia Meireles

A função da Academia e Think Thanks em tempos de crise, é apontar caminhos para a sociedade. Aliás, antever as crises, e evita-las está entre as metas que estes players teimam em não cumprir, imobilizados em abraços de afogado com políticos e governantes cegos.
No excelente livro “A quarta Revolução”, os autores John Micklethwait e Adrian Wooldrige, cumprem esta regra ao anunciarem a falência do estado, e alertarem para as grandes transformações previstas em escala global, em função do uso massivo de inovações tecnológicas, de tal monta ,que com os novos usos da tecnologia da informação, as democracias correrão perigo.
E esta é uma boa leitura que recomendo para os próximos feriados, pois quem lê um livro assim, muda primeiro a si mesmo, depois muda o mundo. Principalmente ao constatar, algo desesperador, que contratamos para a Nação mais uma década perdida, por causa da miopia estratégica de governantes de plantão. Onde o desemprego estrutural entre os jovens, que ajudamos a formar, está, infelizmente, entre os subprodutos desses tempos de ilusionismo a que se refere a poetisa em tela.
O Brasil figura, ao lado da África do Sul, Itália, e sudeste asiático, na lista de países e regiões onde os impactos da quarta revolução industrial serão predominantemente negativos, informam os painéis de discussão do último fórum econômico mundial em Davos na Suíça.
Para contornar esta situação, será necessário investir primeiro em qualificação de pessoas, e depois reformar o estado, utilizando de forma mandatária, os orçamentos legislativos para investir em inovações tecnológicas e sustentabilidade – temos massa crítica para isso. Por exemplo, as inovações em start ups , em curso no universo de produção de energia e no uso de tecnologia da informação, até 2020, impactarão nossa mão de obra, reduzindo-a em 6% pela otimização dos postos de trabalho .
Todavia, segundo os especialistas, há um contraponto que aquece a alma: o setor de mobilidade e logística no Brasil, e notadamente em Uberlândia, terá uma janela de oportunidades jamais vista até hoje, e poderá ser o trator a nos tirar da imobilidade. O governo de Uberlândia, eleito em novembro, já com quase um ano de mandato, deve aliar gestão e inteligência para explorá-la, e sair dos labirintos de escândalos na área de saúde, e justiça, que corroem energias e recursos ao invés de incrementá-los.
Já na área de relações internacionais, as Academias deveriam, a meu ver redirecionar pesquisas ,patentes e artigos visando países do oriente, como Singapura – um padrão, que reformou o estado, e prepara seus alunos para esta nova era. E seus efeitos de benchmarking já atingiram a china e EUA, e estão se irradiando para países da região, como Arábia Saudita, Bahrem, Omã, Quatar, Emirados árabes Unidos, e quem diria? Já chegaram ao Chile aqui pertinho, além do México, Índia e Turquia…Porque estaríamos fora disso? Esta é uma agenda necessária para 2018 – para voltarmos à rota de nosso destino de grandeza, após termos vencido a inércia da maior recessão da história deste País. E Reinventar a vida, apesar do impopular e corrupto governo Temer.

*Professor Doutor e Presidente da Academia de Letras de Uberlândia (ALU)
debatef@debatef.com

Um jornalismo que acabou

Percival Puggina

Há um jornalismo que acabou. Fala com as paredes. Irresignado ante a falta de eco, cospe no vento. Cisca no dicionário adjetivos que, de tão mascados, se tornaram rejeitos de lixo orgânico, direto ao saco preto. O vocabulário com que o “politicamente correto” se protegia entra num debate, hoje, murcho como maracujá. Quem leva a sério o adjetivo “reacionário!”, ou “conservador!”, ou “neoliberal!” (lembram dele?), ou ainda o “fascista!”, que os próprios comunistas gastaram mundo afora contra seus adversários antes do tiro na nuca?
Durante décadas, esses senhores foram os regentes das redações, onde desfilavam proféticos, iluminando o mundo com olhares que se derramavam sobre uma nova humanidade e um novo tempo. Eram os kaisers do quarto poder, ditando as normas técnicas para a engenharia do brilhante futuro. Perder tempo com eles, agora, é como contemplar a alvorada de um passado que se refuga. Xô! Quebraram o Brasil, acabaram com a Educação e atacaram, um a um, os valores que sustentariam moralmente a nação.
A sociedade compreendeu, por fim, que, tanto quanto ela precisa conservar valores que orientem as ações humanas para o bem (conservadorismo), a economia precisa de liberdade (liberalismo) para evoluir. Se observarmos atentamente, veremos que isso é tudo que o velho jornalismo militante, mãos dadas com os camaradas do mundo acadêmico, se dedicou a destruir; e que parcela importante do clero católico se descuidou de preservar.
Tem duas razões fundamentais para viver, esse jornalismo. A primeira é servir de memorial adulterado dos “anos de chumbo”. Vivem na nostalgia daquele período, misturando a saudade da própria juventude com o tempo em que conseguiram articular um discurso cuja consequência, em tese, rimava com a causa. A segunda é combater liberais e conservadores, qualificando-os como fascistas. Mas, sem direito a tiro na nuca, tudo fica menos produtivo. Fazer o quê? Mudar-se para Cuba ou para a Coreia do Norte?
Não recordo, ao menos em passado recente, de esforços retóricos tão velhacos, tão fraudulentos, quanto os empregados nas últimas semanas por esse jornalismo para tentar convencer a sociedade de que:
• os conservadores seriam hipócritas bradando contra nudez e erotismo na arte;
• gravuras grotescas dedicadas a sujos entreveros sexuais, se expostas em ambiente cultural, deveriam merecer a mesma reverência de conhecidas obras-primas da arte universal;
• sentimentos e atitudes tão diferentes entre si como repulsa, indignação e boicote seriam “sinônimos” de censura;
• sexo não existiria, o que existe é gênero e toda criança deveria começar a aprender isso no bercinho da maternidade;
• as redes sociais seriam uma terra de ninguém tomada pela direita raivosa.
Quem faz afirmações assim não está a mudar de assunto. Está a corromper a razão, conforme mencionei em recente vídeo. Há semanas repetem isso ao país e querem credibilidade? Pretendem seguir influenciando a opinião pública? Subestimam a inteligência daqueles com quem se comunicam! Foi ao servir nacionalmente esse cardápio de falsidades que o velho jornalismo militante deu extraordinário alento aos bons conservadores e aos bons liberais. Refiro-me aos conservadores que estimam a liberdade e aos liberais que reconhecem a necessidade de preservar valores morais.
A sociedade não se escandaliza com nudez desde 22 de abril de 1500 e pouco se interessa pelo que acontece atrás das portas, desde que seja vedado o acesso a crianças. Mas entendeu, perfeitamente bem, ser isso que jogou o velho jornalismo militante na pornomilitância.
O silêncio que cai sobre ele vem por overdose de si mesmo.
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* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

Tenho sede

William H Stutz*

E não é que acharam cem litros de água na lua? Espantoso. Porém, enquanto lá no cosmo, sem alarde, ruído ou consulta prévia a poetas e dragões, sonda espacial recheada de caríssima tecnologia se espatifava em solo lunar, para desalento de trovadores e afins, na busca de poça d’água, aqui embaixo, mais de um bilhão de pessoas passam sede ou não têm acesso a água potável.
No Brasil cerca de 600 mil pessoas estão sedentas, sofrendo a quase total escassez do precioso líquido, isso só no sertão do Piauí.
Um artigo publicado no “L’Osservatore Romano”, tempos atrás, trazia em manchete “A sede mata filhos da África”: “Na África, morre uma criança a cada quinze segundos, porque não tem acesso à água potável”, rugia o diário da Santa Sé.
No ano passado uma ONG belga e a Cruz Vermelha conseguiram arrecadar 3,3 milhões de euros e ainda ganhar dois Leões de ouro, um de prata e um Titanium Intregated em Cannes com campanha usando o mesmo clamor do jornal católico.
Produziram um filme dramático, “Thirsty Black Boy”. Não viu? Ainda há tempo, pois está no Youtube onde pode ser encontrado sob o título “Black Boy Wanting Water”.
O filme parte do constatado fato de que todo apresentador de televisão aparece sempre com um copo d’água ao seu lado. Durante vários dias o misterioso vídeo, que não estava ainda assinado, mostrava um garoto negro invadindo rapidamente e sem cerimônia, ao vivo, estúdios de emissoras de TV de todo o país. Agarrava e bebia vorazmente aqueles copos e, sem dizer palavra, saia correndo. Os entrevistados, que não sabiam de nada, olhavam atônitos e visivelmente nervosos a ação do garoto, apenas observam-no.
Pois bem, esta louvável e muito bem produzida criação arrecadou como já disse 3.3 milhões de euros para combater ou amenizar o sofrimento dos filhos da África.
Muito mais tem que ser feito. Ações isoladas ajudam mas não resolvem. Não basta ver ou ler sobre campos de refugiados em Gaza, na Cisjordânia ou, voltando ao continente africano, onde está o maior campo de refugiados do mundo, em Daddab no Quênia, onde segundo a ONU se amontoam 270 mil almas. E a cada quinze segundos, se vai uma criança, de sede.
Criticar acúmulo de riquezas da Santa Madre Igreja ou os exorbitantes milhões de dólares gastos com mais esta expedição da NASA para encontrar água em nossa vizinha celeste é, me perdoem o sarcasmo, chover no molhado. O mundo também tem sede de ações globais e permanentes.
Recursos existem, só precisam ser aplicados nos lugares certos ao tempo e à hora. Quanto dá isso em segundos?
Um pouco de bom senso e verdadeiro amor ao próximo seriam suficientes para, se não acabar, pelo menos começar de fato a resolver o problema de tantos espalhados pelo mundo. O foco deve estar errado, é como tentar resolver o problema do outro sem ter arrumado a própria casa.
Bordão eu sei, mas nós só temos um planeta terra, um único e solitário lar em meio a bilhões de outras terras inatingíveis, pelo menos por enquanto.
Não varrer calçada com mangueira, escovar os dentes com a torneira fechada e segundo sugestão recente, até fazer xixi no chuveiro durante o banho.
Um bom começo, pois a se continuar como está não teremos apenas uma África sedenta, mas em breve um planeta inteiro, seco, rajado em pó/poeira, e só.
Mas na lua encontraram cem inacessíveis litros de água e aqui, a cada quinze segundos, morre uma criança, de sede.

*Veterinário e Escritor

Em colisão com a vida

Cesar Vanucci*

“Desapartada dos valores humanísticos e espirituais,
a economia colide com a justiça social.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Em tudo quanto é pedaço de chão deste mundo convulsionado o que se contempla é uma avalancha de desatinos. Uma agressão belicosa à ordem social, econômica e política, gerando fieira interminável de injustiças e indignidades. Como costumava dizer um governante – cujo nome a maior parte das pessoas só ousa pronunciar debaixo de certas cautelas, dando três batidinhas no tampo da mesa e dizendo bem baixinho, mas com firmeza, “mangalô”, também três vezes – a economia vai bem, mas o povo vai mal. E, falar verdade, isso não ocorre apenas aqui por estas bandas desguarnecidas do sul do Equador. O cenário pode-se garantir se reproduz por aí afora. Com maior contundência ali, mas configurando sempre que as coisas funcionam mal, que o “Projeto da Criação”, previsto para este planeta pelo bom Deus, vem sendo conspurcado em suas propostas originais.

Um estudioso em economia, de espírito desarmado, que consiga se desvencilhar da “síndrome do economês”, poderá resumir rápido e rasteiro em não mais do que duas frases, todo o drama econômico-social asfixiante destes tempos modernosos. A economia não pode ser considerada um fim em si mesma. Há que ser vista como um meio para se atingir um fim. O fim é sempre social. Está dito tudo.

Os que alcançam esse nível correto de entendimento sabem muito bem que os rumos trilhados pela economia, nesta hora de tremendos disparates globalizantes, continentais, nacionais, regionais, carecem urgentemente de impactantes corretivos. As correções a serem feitas terão que estar compatibilizadas naturalmente com os ditames da cidadania, o sentimento democrático e os valores humanísticos e espirituais que conferem dignidade à aventura humana. As coisas não podem continuar indefinidamente do jeito que andam sob pena de se deixar largada à cobiça, ambição e mesquinhez de poucos a construção de um destino que se descortina catastrófico pra todos. Transformando o dinheiro em ícone sagrado nas ações ruidosas com que movimentam as engrenagens sociais, numerosos detentores do poder político e econômico, com a responsabilidade de quem se acredita a emitir, por desígnio divino, éditos imperiais para a coletividade inteira, só fazem alargar, insensata e incessantemente, o fosso que separa o pedaço do mundo povoado pelos pouquíssimos que têm muito de tudo, do pedaço habitado por multidões desprotegidas que pouco ou nada têm.

A distribuição da riqueza mundial é extremamente perversa. Um pequeno exemplo. Cingapura é um dos menores países desta nossa ilhota perdida no oceano cósmico. A bem dizer, não é um país. É mais uma cidade pomposamente rotulada de país. Não extrai nadica de nada do solo. Sua ostensiva pujança, cantada pela “neobobice” em verso e prosa, deriva de situações puramente artificiais, engendradas nos altos conselhos dos grandes cartéis e da megaespeculação financeira.

Singulares critérios geopolítico-econômicos fazem do minúsculo território, que é regido por figurino governamental despótico, onde as pessoas podem ser severamente punidas pelo “crime” de transportar no bolso goma de mascar, um centro de polarização de investimentos algumas vezes superiores à movimentação financeira de todos os países, juntos, do continente africano. O jogo dos interesses econômicos e a gula insaciável, para exemplificar, dos setores bélico, petrolífero, farmacêutico traçaram destinos muito diferentes para Cingapura e para a África. Tai devidamente caracterizada uma colisão da “economia” com a vida.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A reforma

Alcino Eduardo Bonella*

Em 31 de outubro de 2017 comemoramos os 500 anos da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero. Um dos legados mais importantes da Reforma foi que, em grande parte, ela impulsionou e fortaleceu a reflexão e a prática da tolerância religiosa e política, ao criar uma Europa com muitas e divergentes confissões cristãs.
Por outro lado, em parte foram os conflitos religiosos que continuaram entre as igrejas protestantes entre si, e entre estas e a Igreja Católica, incluindo guerras sangrentas e conflitos políticos constantes, que, junto com a Reforma, contribuíram para se achar a melhor solução prática e política para pacificar as religiões: o chamado Estado secular ou laico.
Trata-se do Estado em que há separação entre Política e Religião, entre governos e Igrejas, não só uma ideia e atitude deste ou daquele grupo, mas algo institucionalizado. O Estado secular é aquele que é neutro em relação às crenças religiosas. Em geral as pessoas hoje em dia se referem ao ideal de neutralidade como algo negativo, por indicar uma postura de ficar “em cima do muro”: mas no caso da relação entre Igrejas e governos, é exatamente disto que se trata, que o Estado não tome partido por esta ou aquela religião ou igreja, mesmo da maioria.
Um Estado que garante mais efetivamente o direito à livre consciência, à livre expressão e à liberdade religiosa implica que as Igrejas não podem usar do poder político nem da influência de instituições do Estado (como as escolas públicas) para avançar suas agendas ou seus costumes. O Estado secular é um tipo de privatização das religiões: elas se expandem na esfera privada, civil e social, mas não na esfera pública, estatal e política. Com isso seus recursos para expansão e divulgação voltam a ser a pregação e o exemplo, e não mais o uso da força legal ou policial. Um exemplo claro é o ideal do casamento ou a ideia do divórcio. Uma Igreja pode ser contra o casamento gay, mas terá de convencer pela pregação e pelo exemplo, e não mais usar as leis e a força estatal para proibir que aqueles gays que desejam se casar o façam na esfera civil.
Tal separação entre Estado e Igrejas é antes de tudo uma garantia e proteção a cada uma e todas as igrejas e também a outras comunidades religiosas (não cristãs), e o enfraquecimento de tal Estado é um enfraquecimento da vida religiosa em si mesma. Quanto menos presença e influência das Igrejas na esfera estatal, maior sua diversidade e expansão na esfera civil.
Algo que para algumas pessoas enfraquece o Estado secular é a crescente influência de políticos religiosos tradicionalistas nas políticas públicas, apelando explícita e oportunisticamente a sua religião particular, por exemplo, para formatar políticas de educação (ensino religioso em escolas públicas) ou de saúde (proibição total do aborto) ou na produção de legislação (proibição do casamento gay).
Outro fator de enfraquecimento do Estado secular é a crescente insistência de parte também crescente das pessoas religiosas comuns em tentar censurar e proibir ideias e atitudes que elas desaprovam, ora com o poder do Estado (acionando os políticos eleitos para fazerem a censura), ora com a pressão social em manifestações nas redes e nas ruas visando tal censura e proibição. A manifestação que visa criticar ou expressar desaprovação ao que quer que seja é boa e correta, consequência exatamente da liberdade de expressão. Mas a pressão visando proibir ou censurar seja a expressão artística seja a crítica à religião, é ruim e incorreta, pois desrespeita a mesma liberdade de expressão que se possui.
Algumas vezes há a pura violência física a outras formas pacíficas de vida (como a gays), ideologia (como a ateus) e espiritualidades (como a religiosos de matriz africana).
O humanismo moderno não religioso desenvolveu e ampliou um senso de civilidade e fraternidade entre todos os homens e um conjunto de instituições democráticas atuais, como o fim da imposição estatal de uma religião oficial ou igreja oficial. Mas tal humanismo e tais reformas foram impulsionados também pelo próprio cristianismo, no caso, pela Reforma Protestante.
Um cristianismo mais pacífico, mais humanista e mais pluralista é um dos principais legados civilizacionais da Reforma, algo que cabe a todos, cristãos ou não, comemorar e defender.

*Professor universitário

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