Investimento público-privado

João Batista Domingues Filho*

Decisões são políticas, recursos são econômicos. Presidência em confronto permanente com o Congresso e militares. Sem partido, sem negociação, sem base, sem equipe adequada a essa situação gerada pela governação desse capitão-presidente, inquilino do Planalto. Brasil com sua complexidade é ignorado, diversidade política do país induzida ao conflito sem fim virtuoso desse modelo de governança presidencial. Brasil não cresce por si unicamente com a reforma da Previdência. Ninguém sabe por onde fazer o crescimento econômico do Brasil. Reforma da Previdência melhorará unicamente no longo prazo as contas públicas. Não existe para essa Presidência um projeto nacional coordenado e consistente para induzir os investimentos públicos e privados necessários para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Edmar Bacha, um dos criadores do Plano Real, batiza esse capitão-presidente de “cabeça-soviética”, com planejamento central padrão Geisel (1974-1979). (Época, 20-05-19). Brasil grande só geograficamente, fora do eixo do comércio global, sem inovação tecnológica nos setores produtivos. Bacha oferece a receita de bolo: “precisamos primeiro gerar demanda, depois reduzir o custo Brasil, para depois fazer a reforma tributária e aí abrir a economia.” Realidade brasileira: dívida pública em trajetória explosiva, num processo recessivo, faz Bacha profetizar: “o risco de ter uma corrida, como está ocorrendo na Argentina, é alto. As pessoas perdem a confiança e podem achar que o governo vai dar o cano de alguma maneira. E aí o dólar bate sei lá onde e perde-se o controle da situação.”
União apresenta o menor dos investimentos dos últimos 13 anos: R$ 6,2 bilhões, de janeiro a março, correspondem a 0,35% do Produto Interno Bruto (PIB), menor na série histórica desde 2007, agravando tudo o contingenciamento de despesas por insuficiência de receita em R$ 29,8 bilhões, com redução orçamentária de R$ 2 bilhões, para o governo conseguir cumprir a meta de déficit primário de R$ 139 bilhões neste ano. É o sacrifício do investimento público por incapacidade do governo de cumprir a meta do resultado primário do ano, resultante da dificuldade de arrecadação, com carga tributária em nível crítico, com investimento público inferior a 0,5% do PIB. Tesouro define investimento: despesas para aumentar a produção ou geração de bens do patrimônio público, como obras, instalações, compras de máquinas e equipamentos. Despesas correntes de custeio: funcionamento cotidiano da máquina pública: água, luz e despesas diárias caíram 7%: R$ 43, 7 bilhões.
Brasil se distancia do nível de renda dos países desenvolvidos, com baixo crescimento da produtividade. É o Brasil ficando mais pobre em termos relativos, com seu subdesenvolvimento. Em 1980, o PIB per capita brasileiro, em paridade de poder de compra com os EUA/Dólar 2011, era de US$ 11.372, equivalente a 39% do americano. Em 2018, era apenas 26% maior que em 1980. Os US$ 14.359 do ano passado equivalem a 25,8% do PIB per capita dos EUA. Chile: de 27,4% para 41,5%. Coreia do Sul: de 17,5% para 66%. Qual a saída dessa situação do Brasil: aumentar o investimento público-privado para modernização e expansão da capacidade produtiva do país, dependente, ainda, melhorar o desempenho dos alunos brasileiros nos testes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), para crescimento daqui a 20, 25 anos. Se não, ficamos em prisão perpétua na armadilha de renda média, sem alcançar o estágio de rendimento alto per capita para a maioria dos brasileiros.
Viés de otimismo, sem sustentação estrutural, desde 2011, com superestimação de projeções de crescimento do PIB. Recuperação econômica do Brasil é pífia com persistência do otimismo bobo-alegre. Produtividade do trabalho próximo de zero, sem investimento público-privado: infraestrutura, educação, desburocratização e incentivos para redução do custo Brasil explicam as frustrações com a Presidência. Presidência escolhe ir para as ruas capturar bodes expiatórios para suas incompetências governativas, o quê fez os agentes econômicos perderem a confiança que cresceu de setembro de 2018 até fevereiro de 2019. Lua de mel o PIB Brasil com o presidente acabou em março. Expectativa futura piora em abril de 2019, desde junho de 2016. Reversão da expectativa futura com risco de desgoverno, dada a produção industrial, arrecadação de impostos e queda na geração de empregos. IBC-BR: PIB mensal do Banco Central caiu 0,6% nesse primeiro trimestre.

*Cientista político – Uberlândia

Árvores: por que não?

Ana maria Coelho Carvalho*

Sinto tristeza ao olhar algumas ruas de Uberlândia. Não existem árvores nas calçadas. Por exemplo, na Duque de Caxias, entre a Av. Rondon Pacheco e o centro, existe apenas uma ou outra árvore, que tentam sobreviver ás inúmeras podas que sofrem. Basta ficarem um pouco frondosas para cortarem todos os seus galhos, deixando só os troncos, sem verde e sem beleza.

No entanto, como cada moeda tem dois lados, existem pessoas que defendem o plantio de árvores nas calçadas e outros que são contra. Em defesa das árvores, podem ser levantados vários argumentos, como: elas dão sombra, flores, frutos e embelezam as ruas. O verde descansa e acalma. As árvores são o ornamento da Terra. O planeta está cada vez mais quente e elas são importantes para diminuir esta temperatura, melhorando as condições microclimáticas da cidade. Servem de abrigo e de alimentação para vários animais, contribuindo para a biodiversidade e para o equilíbrio das cadeias alimentares. Diminuem a poluição atmosférica, pois o vapor dágua eliminado na transpiração das plantas se mistura com poeira e gases tóxicos e se precipita no chão. Auxiliam no controle da poluição sonora porque o som, ao bater nas folhas, é parcialmente absorvido ou desviado. Diminuem a poluição visual: é muito mais agradável olhar uma árvore do que vários cartazes. Purificam o ar ao absorver o gás carbônico e liberar oxigênio. Embelezam a cidade e diminuem o stress das pessoas, pois é sempre bom contemplar o belo. Reduzem a velocidade do vento. Retêm a umidade do solo e diminuem a erosão, com suas raízes. Além disso, conferem identidade particular às residências, por exemplo: “moro na casa com uma quaresmeira roxa na frente”.

Por outro lado, os que são contrário ao plantio de árvores na calçada, possuem argumentos como: estragam o passeio e a rede de esgoto com as raízes. Danificam a rede elétrica. As folhas entopem as calhas nos telhados. É trabalhoso varrer as folhas que caem. Há vizinhos que não gostam de árvores e surgem atritos na vizinhança. Prejudicam a iluminação da rua, escondendo as lâmpadas. Servem de esconderijo para pessoas estranhas. Algumas causam alergias.

Mas, parodiando Vinícius de Morais, que dizia: “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, digo que “os que são contrários às árvores que me perdoem, mas as árvores são fundamentais”. Além de tudo, o plantio de árvores adequadas para calçadas elimina praticamente todos os problemas levantados. Por exemplo, para calçadas estreitas, árvores de pequeno porte como murta, flamboyant -mirim e manacá de jardim, são bastante indicadas. Para calçadas largas e sem fiação elétrica, a quaresmeira, o ipê amarelo, a unha de vaca, o cacho de ouro. Outras indicações são as árvores de crescimento moderado, sem raízes volumosas e sem flores muito grandes, que ao cair poderiam deixar o chão escorregadio.

Concluindo, árvore é tudo de bom. Plante uma no jardim, no quintal, na escola, na calçada, no terreno baldio. A natureza e a cidade agradecem. E os seus filhos, netos e bisnetos também, assim como as aves e muitos outros animais. Faça a sua parte. Eu já plantei 29 no meu bairro, há anos atrás, depois de um árduo trabalho para convencer a vizinhança. Hoje, uma das minhas alegrias é caminhar passando debaixo del

*Bióloga – anacoelhocarvalho@terra.com.br

Um narcisismo exacerbado e encoberto!

Autor: Rafael Moia Filho*

Perdoamos uma criança que tem
medo de escuro facilmente.
A verdadeira tragédia da vida é
quando homens têm medo da luz (Platão).

Segundo a psicóloga americana Jean Twenge da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, responsável por pesquisas sobre as atitudes dos jovens hoje e no passado, houve um aumento acentuado na autoestima de adolescentes desde os anos 1980. A geração mais jovem se considera mais inteligente, responsável e atraente do que nunca.
Em parte isso ocorre pelo fato de que a criança cresce ouvindo frases como : “Você pode ser o que quiser na vida, você é especial”. As crianças crescem num regime constante de narcisismo, mas assim que nos soltam neste mundo complicado de oportunidades escassas, cada vez mais gente da nossa geração sofre decepção e fracasso. Segundo Jean, o mundo, descobrimos, é frio e cruel, marcado por competição excessiva e por desemprego.
Não é aquela Disney que os pais e demais parentes diziam para você quando criança. A magia de pensar que era só pedir e as coisas aconteceriam como por encanto não existem e ficam claras com o passar do tempo para todos os jovens.
No fundo esse narcisismo acoberta um oceano de incerteza, os jovens acabam sendo mais medrosos e temerosos do futuro que enfrentaram sozinhos.
Ao comparar 269 estudos conduzidos entre 1952 e 1993, Jean Twenge concluiu que a criança média na América do Norte no início dos anos 1990 era mais ansiosa que os pacientes psiquiátricos no início de 1950. De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS, a depressão se tornou o maior problema de saúde entre adolescentes e será a causa numero 1 de doenças no mundo inteiro até 2030.
Esses dados embasados em estudos sérios que consumiram anos de trabalho árduo da psicóloga Jean Twenge servem como reflexão para nós brasileiros, que estamos longe de viver num país onde os jovens possam desfrutar de condições adequadas para crescer, estudar e principalmente exercer suas profissões obtendo salários compatíveis com suas carreiras.
O que vivenciamos atualmente é uma geração que não aprendeu a ouvir um “não” de seus pais. Não recebeu deles imposições e limites que deveriam nortear suas vidas pessoais e profissionais. Uma geração que desiste antes de lutar, prefere a violência ao ouvir um não da parceira e deixa de estudar para se jogar num mercado de trabalho que exige cada dia mais capacitação.
É com profunda preocupação que assistimos o desperdício de uma geração a frente de futilidades, redes sociais, banalidades enquanto nos países desenvolvidos estão focados em ensinar aos seus jovens inteligência artificial, machine learning, big data, business e demais assuntos que enriquecem currículos e capacitam-nos para o futuro.

Fontes: Jean Twenge e Rutger Bregman (Utopia para realistas)

*Escritor, Blogger e Graduado em Gestão Pública.

Não, senhora, democracia não é isso!

Percival Puggina*

“Vejo grandes perigos que são possíveis conjurar, grandes males que se podem evitar ou restringir, e firmo cada vez mais a crença de que, para serem honestas e prósperas, basta ainda que as nações democráticas o queiram.” Alexis Tocqueville

“Ingênuo!”, exclamarão alguns. “Não entende de política!”, dirão outros. “Quem é esse cara?”, indagarão muitos.
Que as pessoas argumentem para defender o próprio interesse é perfeitamente comum. Na política, muito “escondidinho” é feito com esse recheio. Bem diferente é o que acontece quando os sofismas são apresentados por pessoas e por meios de comunicação dos quais se espera melhor discernimento.
Afirmar que o Congresso pode barrar a Medida Provisória da Reforma Administrativa e argumentar sobre os fundamentos desse direito, é bem diferente de sair em defesa do Centrão (do Centrão!) quando faz isso. Aqui estamos diante do interesse público, do desrespeito à vontade popular que quis eleger um governo e um programa comprometido com a austeridade e a redução do gasto. A MP da Reforma Administrativa define o modo como o Presidente pretende governar. Com ela, reduziu para 22 o número de ministérios, extinguiu 21 mil cargos de confiança e eliminou custos fixos que ascendem a centenas de milhões de reais.
O Centrão, que não se confunde com o Congresso, e certamente não reúne a elite moral do Parlamento, decidiu – de modo inédito – intervir na forma como o governo deve ser organizado, cobrando a recriação de pelo menos dois ministérios (o das Cidades e o da Integração Nacional). Além de ser, o primeiro, um anacoluto na gramática de uma Federação, as duas pastas serviam aos interesses políticos dos congressistas junto aos prefeitos e governadores. Eram ministérios endinheirados e agências de negócios tão importantes quanto escusos. Reabri-los é uma bofetada na face da maioria do eleitorado que se manifestou nas urnas de outubro do ano passado. O mais desinformado jornalista de Brasília sabe disso e sabe que, exatamente em nome do respeito devido a quem venceu a eleição, o Parlamento deve se manter em prudente distância do modo como o governante eleito pretende organizar seu trabalho.
Não há, nesse sentido, uma autonomia absoluta do Executivo, mas há uma autonomia relativa, saída da consideração à decisão das urnas. Há coisas que não se deve fazer e uma delas é exigir a criação de ministérios como condição para aprovar projetos de governo. Isso não expressa uma convicção técnica sobre gestão, mas uma operação comercial. É indecente com todos os créditos do adjetivo, principalmente quando o Centrão quer a volta dos ministérios para si, com porteira fechada!
Portanto, dizer que tal conduta é própria da democracia e das prerrogativas dos poderes é defender um jogo político que levou muitos aos desconfortos dos cárceres! Tudo bem que Rodrigo Maia e seus seguidores queiram isso. Tudo bem que a oposição formal estimule todos os descréditos daí decorrentes. Tudo bem que muitos se deixem levar na conversa e que se ouricem os políticos beneficiados pela “negociação” que troca voto por cargo e influência. Mas não venham membros da Academia, jornalistas de relevo (valor é outra coisa), dizer que o Presidente, ao manifestar seu desgosto, revela espírito autoritário e incapacidade de conviver com os fundamentos da democracia. Todos nós sabemos o quanto era desprezível e quanto mal fez às finanças do país, a harmoniosa relação dos governos petistas com sua base.
Quando foi decidido que é inconveniente escandalizar-se diante de algo escandaloso? “Democracia” com esses fundamentos descreve bem os governos anteriores, aos quais correspondem outros adjetivos que recheiam milhares de páginas de inquéritos e sentenças judiciais condenatórias. A isso a maioria do eleitorado de outubro, que exige respeito, disse um redondo não. Isso tem menos a ver com Bolsonaro e mais a ver com o Brasil querendo ser honesto e próspero.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

Violência, Juventude e Tolerância

Gustavo Hoffay*

Não tolero, não agüento, não suporto, tá difícil, assim não dá….Enfim, onde está a nossa aceitação frente a tantas tragédias originadas de criminosos que pululam as nossas ruas, pulam nossos muros, invadem nossas casas, assaltam-nos em qualquer lugar ou hora, matam e estupram ? Não, nós não temos aceitação! O que cabe a cada um de nós, cidadãos comuns, fazer em situações de risco de morte e quando sob as ameaças de bandidos diversos e até reincidentes no submundo da criminalidade? Não, nós não podemos revidar; devemos nos entregar e mesmo que vislumbremos alguma chance de contra-atacar. Pior: a bandidagem sabe disso e aproveita-se disso! O que esperar da policia quando queixamos ou a alertamos quanto a presença de suspeitos rondando a nossa casa ou local de trabalho? Quanto tempo deve-se esperar pela ação da polícia, antes que bandidos finalizem suas ações criminosas e em seguida fujam com os os nossos pertences ou mesmo consumam seus atos ferindo de morte as suas vítimas? Porque tantos menores de idade continuam envolvidos com práticas ilícitas e nocivas à sociedade, quando poderiam estar estudando e/ou trabalhando? Porque as suas respectivas famílias não promovem a inclusão desses seus filhos em uma vida sadia em sociedade e a partir, por exemplo, de projetos sociais de ONG’s e do próprio estado? O que pensam nossos jovens sobre outros de sua idade e que saem cometendo crimes diversos em praças, becos, escolas, igrejas e outros locais públicos? O que falar sobre adolescentes que cometem suicídio e daquelas meninas que ficam grávidas tão logo alcançam a puberdade? O que pensar sobre um adolescente empunhando uma metralhadora ou um fuzil, enquanto atirando contra pessoas inocentes e absolutamente indefesas? E os jovens intolerantes em relação a opção sexual dessa ou aquela pessoa? A intolerância diante algumas circunstâncias sociais está nos jovens ou seria a tolerância dos seus pais a co-autora e inspiradora de atos incomuns e nocivos à sociedade? Penso que diante de tanta superficialidade vivida e praticada por muitos dos nossos jovens, chega-se facilmente à conclusão que considerável parte deles está vazia de nobres propósitos de vida, não tem a mesma tesão por uma vida sadia e solidária, está revoltada por qualquer coisa e deixa-se levar facilmente por opiniões alheias. Nesse mesmo contexto, vejo a nossa democracia transformando-se em alvo de contestações juvenis inúteis e baseadas no “disse-que-me-disse” ou em opiniões de pessoas que possuem algum tipo de autoridade sobre os nossos jovens. Boa parte da juventude brasileira, talvez desejando firmar-se a partir de suas posições frente a grandes polêmicas sociais e/ou políticas daquilo que lhe é próximo, parece ter um comportamento baseado em um analfabetismo ideológico e sustentado por inconvenientes agentes do caos político/partidário. Está faltando, imagino, uma interação maior entre filhos e pais quando o assunto é política e sob qualquer prisma. Há famílias que concordam apenas com a educação política que seus filhos recebem das ruas, enquanto quase nunca os questionam a respeito de determinado assunto de interesse nacional. Isso seria uma forma de testar a tolerância daqueles jovens em relação a temas que despertam o interesse coletivo.Sabemos todos que a educação básica deve ter origem nos lares e que cabe as escolas complementarem com algo mais.O começo de tudo está no lar: o sentimento e a prática da humildade, da disciplina, da educação, do respeito ao próximo e às opiniões contrárias. Não cabe aos pais, eu penso, encherem a cabeça dos filhos com incitações à violência, maus exemplos de condutas familiares e sociais, de ideologias políticas ou de formulas absurdas de como resolver conflitos diversos.Nada de desamor e ódio na educação dos nossos jovens; talvez ,até, algumas palmadas…sim! Antes isso que discursos domésticos racistas ou impregnados de impropriedades ideológicas que possam direciona-los rumo a uma intolerância e um desamor destrutivos, vorazes! E tudo isso seria muito ruim para eles, para todos nós. Quer ser contrário, seja; quer contestar, conteste. Mas venha e traga consigo pareceres, sugestões e idéias próprias baseadas no bom senso e preferencialmente na lógica. Isso sim, seria muito bom para eles, para todos nós.

*Agente Social/Uberlândia-MG

As raposas, nossas uvas e o buraco

Percival Puggina*

Ontem, 9 de maio, numa cumplicidade translúcida, escancarada, as raposas da comissão mista meteram pata na reforma administrativa austera e séria proposta pelo Presidente. Não lembro de que algo assim já houvesse acontecido. O Congresso negar ao eleito a possibilidade de organizar seu governo segundo melhor lhe pareça? Note-se: essa metida de pata ocorreu para recriar dois ministérios que são autênticos navios piratas a serviço dos cambalachos em que se negociam votos e se atendem interesses locais em detrimento da conveniência nacional. A recriação do Ministério das Cidades e do Ministério da Integração Nacional tem que ser lida e entendida pelo que é: uma regressão à velha política, à política das raposas. Se vivemos ou se queremos viver numa Federação, poucas coisas serão tão perniciosas e não federativas quanto um Ministério das Cidades e um da Integração Nacional. Ambos são clara expectativa de influência e poder sobre os prefeitos e governadores, com mediação e bônus para aquele lastimável tipo de congressista que, sem isso, não sabe o que fazer em Brasília.
Sem essas duas pastas (pelo controle das quais se engalfinharão), as velhas raposas viam verdes as uvas…
Aquela esperança que se acendeu com o resultado das eleições de outubro passado, determinando grande renovação nas duas casas do Congresso, já foi consumida pelo jogo de interesses da velha política. Ela continua a dar as cartas, os partidos do velho Centrão receberam a lição das urnas, mas rapidamente recrutaram adeptos entre os novos colegas e se firmaram como centro de poder. Ontem se juntaram ao PT para tirar o COAF das vistas do Ministério da Justiça, vale dizer, de Sérgio Moro, para hospedá-lo no Ministério da Economia.
O Ministério da Economia não é hospedaria adequada para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Na página do órgão, lê-se:
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras – Coaf tem como missão produzir inteligência financeira e promover a proteção dos setores econômicos contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo.
Não se trata, como tentaram fazer crer alguns meliantes da retórica parlamentar, de um órgão para “lidar com finanças”, em paralelismo ou em subsídio ao Banco Central. O COAF, como se vê e como ele se descreve, é um órgão para investigar condutas criminosas, ilícitas, que requerem ação do Ministério da Justiça e da Polícia Federal, e relações institucionais com MPF e Justiça Federal. Bolsonaro levou o COAF para o lugar certo, onde os bons cidadãos sabem que ele deve ficar.
Raposas cuidam de seus rabos ainda mais do que macacos. Se o COAF deve ir para a pasta da Economia, a Polícia Federal deveria, pelo mesmíssimo motivo, ir para a Secretaria da Pesca!
Essas decisões da comissão mista, que agora dependem dos plenários das duas casas, são importantíssimas ao futuro do país. Enquanto as velhas raposas do Congresso Nacional, de modo vulpino, ajudam o PT, agora na oposição, a quebrar de novo o país, discutem-se entre nós temas que, em poucos meses, virarão blábláblá dentro do buraco de que nos avizinhamos. Todas as raposas, creiam, estarão do lado de fora e não lhes faltarão uvas. Nem vinhos finos.

P.S. Melhor será se acordarmos logo para o fato de que não aconteceram as esperadas mudanças no Congresso Nacional. Estes dias deixaram evidente que as velhas raposas do Centrão continuam dando as cartas e ignorando o país real. O Congresso foi renovado, mas a regra do jogo continua sendo ficha suja. Então, escrevi este artigo para que isso nos mobilize. Depois de tudo que aconteceu nos últimos seis anos, esses cavalheiros e essas damas não podem imaginar que tudo continuará como antes. Nem pensar! (20h12min)

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

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