Santa ilusão

Paulo Henrique Coimbra de Oliveira*

Nossos presidentes tupiniquins acham que por serem recebidos pelos gestores de grandes potências pensam, e o pior acreditam, que são amigos deles. Santa ilusão. Arreganham as pernas igual prostitutas e no final nem gorjetas recebem. Desde que me entendo como gente é assim e jamais deixará de ser. Somos tratados como seres de quinta categoria. Basta ver nosso desempenho na educação para chegarmos a esta triste conclusão. E teve um que achou que era o cara. Triste folclore.

*Economista

G U G U

Marília Alves Cunha*

Nunca prestei muita atenção no Gugu Liberato, raras vezes assistí seus programas. O formato demasiadamente popular, por vezes até bizarro não me agradava. Mas sei agora que eram do agrado de grande parte da população brasileira. Gugu Liberato foi um fenômeno de popularidade .Para mim eram desconhecidas a vida do artista, seu modo de ser, seu relacionamento com o público, sua vida pessoal, o carinho e amor que angariou dos amigos, fãs e colegas de trabalho, seu envolvimento forte com a família. Era apenas um astro a mais no universo composto pela classe artística brasileira.
De repente o Gugu morre. Sem mais nem menos. Uma queda que poderia ser uma simples queda, sem maior gravidade, tira a vida do apresentador. Uma decisão precipitada, uma vontade de resolver as coisas a hora e a tempo, acabam por gerar tragédias. E nos levam também a pensar no perigo que representa uma queda dentro de nossas próprias casas e no que elas podem causar de risco a nossa saúde e a nossa vida, ao cuidado que devemos tomar numa fase de vida quando a capacidade funcional e cognitiva diminuem inexoravelmente.
Gugu não me chamou a atenção em vida, o faz agora na morte. Não daquela maneira meio grotesca com que dizemos: Todo mundo é bonzinho e bonito depois que morre… O apresentador fez mais do que existir, viveu uma vida plena. Deixa o Brasil comovido, com milhares de pessoas agradecendo sua generosidade, com milhares de pessoas enaltecendo sua simplicidade, com milhares de pessoas chorando muito e sinceramente. Chorando por um homem que veio para vencer, para se impor pela sua vida pessoal e pelo sucesso de uma carreira, iniciada ainda na juventude.
E quem nunca pensou seriamente em doação de órgãos, se vê agora diante de mais este último ato de generosidade de Gugu Liberato. Seus órgãos foram doados a seu pedido e representam a possibilidade de vida e saúde para 50 pessoas. É um gesto bonito, um gesto maior que sai apenas dos corações de pessoas que carregam dentro de sí um sentimento que extrapola sua própria vida.
Nas redes sociais circula um vídeo mostrando o momento em que o corpo de Gugu era levado à sala onde seria feito o procedimento. Nos Estados Unidos, quando um paciente faz doação de órgãos, médicos, enfermeiros e familiares fazem fila, à passagem do corpo do doador, em homenagem a este gesto humanitário. É conhecida como “Caminhada do respeito”. E é linda e emocionante esta caminhada, assim como a oração que se faz no momento. Penso que muitos assistiram o vídeo e derramaram lágrimas, como eu. Lágrimas por uma pessoa que, na morte, deu um exemplo edificante de amor ao próximo, lágrimas por uma família que respeitou incondicionalmente a vontade de seu membro. Que seja um grande incentivo este gesto de amor, bondade e solidariedade.
Acompanhei o carinho com que o Brasil inteiro se despediu do Gugu. Fiquei fã, apesar de tardiamente, daquele rapaz louro, simpático, criativo, simples, que foi habitar outro plano, mas deixou marcas indeléveis de sua estadia aqui na terra. Daquela pessoa que viveu com intensidade, não apenas existiu. Não é qualquer um que faz isto não!!!

*Educadora e escritora – Uberlândia – MG

A grande mentira

Percival Puggina*

Há um número significativo de pessoas para as quais a causa da pobreza no Brasil é a concentração da riqueza “nas mãos de uns poucos”. Ou, em outras palavras, que os pobres são pobres porque os ricos são ricos. Ou ainda, numa perspectiva instrumental, que para acabar com a pobreza é preciso dividir a riqueza (a palavra mais usada é “partilhar”).
Mensagens assim são disparadas cotidianamente desde várias fontes, nos meios de comunicação, nas redes sociais, nas salas de aula, nos sindicatos, nas igrejas, nas conversas de bar e nos ambientes culturais. Sob tal bombardeio de inverdades seria impossível que o conceito não derrubasse as resistências que a razão pudesse propor, fazendo de toda riqueza um mal e de todo rico um sujeito perigoso.
Andaríamos mais rapidamente e melhor na direção certa se entendêssemos o quanto é enganadora essa leitura ideológica, a partir da qual a utopia socialista é receitada como remédio no teclado do micro, na folha do livro, na coluna do jornal e na sala de aula.
Existem explicações muito mais racionais para a pobreza de tantos brasileiros e para a pobreza do país. O Estado brasileiro se agigantou e engole mais de 40% do PIB nacional, gerando uma brutal concentração de renda em torno de si mesmo e obrigando os cidadãos a trabalharem de 1º de janeiro até 31 de maio para pagar impostos. Tais impostos são pagos para um retorno em serviços que, ou não são prestados, ou não têm a qualidade que se deveria esperar.
A corrupção e os corporativismos atacam, simultaneamente, o bolso dos cidadãos gerando uma apropriação privada de recursos que, em tese, deveriam estar a serviço de todos, produzindo desenvolvimento econômico e social. Os dois fatores espantam investidores externos e tornam o país pouco atrativo a quem tenha destinos mais seguros para seus recursos.
Nosso modelo institucional é causa de permanente instabilidade política e de crises que se sucedem umas às outras, somando-se aos fatores de risco do país. A irracionalidade do presidencialismo dito de “coalizão” transforma o voto parlamentar em commodity com preço no mercado dos interesses em jogo, levando a corrupção para dentro do parlamento.
Por mais que pareça lugar comum, a afirmação segundo a qual a maior riqueza de um país é representada pelo seu povo, não pode ser negligenciada ao avaliarmos os motivos da existência de tantos pobres e de tão evidentes sinais de pobreza no Brasil. Uma rápida busca no Google evidenciará que algo entre 60 e 82% dos postos de trabalho abertos no país não são providos por falta de capacitação dos pretendentes. É reprodutor de miséria e causa de baixo desenvolvimento social um sistema de ensino de pouca qualidade. Todo ano, em proporções demográficas, apresentam-se ao mercado de trabalho jovens egressos do ensino médio que não conseguem montar uma regra de três, não sabem interpretar o que leem e não se expressam de modo adequado no idioma nacional. Onde encontrar o bom emprego e o salário digno? Ademais, há uma razoável possibilidade de que parcela significativa de tais jovens tenha recebido, em sala de aula, a lição freireana de que é oprimida pelo capitalismo opressor…
Por incrível que pareça, é dentro desse cenário que a grande mentira encontra seu público, disperso em todas as classes sociais. Chega a ser criminoso atribuir à empresa privada, ao investidor, ao empregador, ao gerador de riqueza as culpas pela pobreza visível no país e, ao mesmo tempo, perversamente, inocentar os verdadeiros responsáveis: o Estado e a carga tributária, a corrupção e os corporativismos, a irracionalidade do modelo institucional, a instabilidade política e a má qualidade da Educação.

* Percival Puggina (74), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

Polícia encanou eufóricos campeões

Antônio Pereira da Silva*

Faz muito tempo.
Em 1978, o Prefeito Municipal Virgílio Galássi nomeou uma Comissão de Carnaval apolítica, embora pouco técnica. Os membros da Comissão foram indicados pelos órgãos de Imprensa e a direção dos trabalhos foi mantida com a Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo.
Como sempre, o Praia Clube, que não depende de verbas extras, cuidou antecipadamente da sua festa. Decorou o salão, vendeu todas as mesas, contratou boa orquestra (“Edson e Seu Conjunto”) e sustentou, nas vésperas, uma expectativa de sucesso entre os foliões e a imprensa. O Presidente era o empresário Waltercides Borges de Sá.
Pelo contrário, as expectativas em torno do Carnaval de rua não eram as melhores. Os jornais registraram que a ornamentação era de mau gosto. Publicaram, com estranheza, que a Prefeitura “contratara” seis Escolas de Samba, mas, acrescentaram que, mesmo assim, o Carnaval não prometia mais do que apresentara no ano passado. Quente mesmo, seria o Praia Clube, diziam.
A Comissão de Carnaval, entretanto, trabalhou bastante e afirmava que a folia de rua receberia total apoio da Prefeitura – em nível de “Uberlândia 90”.
O Carnaval das Escolas, entretanto, acabou sendo pior do que as notícias previam.
O que se viu na avenida Afonso Pena foi a paciência inesgotável do público que esperou as Escolas atrasadas e suportou, quando elas chegaram, pequenos grupos com insuficiência de integrantes. A Imperiais do Samba atrasou duas horas e foi desclassificada. No entanto, todas receberam as subvenções.
Quem ganhou o desfile foi a campeoníssima Garotos do Samba que somou 129 pontos dados pela Comissão Julgadora. Recebeu a Taça TV-Triângulo, o Troféu Euler Lanes Bernardes e mais dez mil cruzeiros.
Em segundo lugar chegou a Unidos do Capela, com 128 pontos, encostada na campeã. Recebeu a Taça Loja das Bandeiras, mais oito mil cruzeiros.
Em terceiro veio a Tabajaras, com 109 pontos. O General Lotinho recebeu com humildade a classificação. Achou-a justa. Recebeu a Taça Irmãos Garcia, mais seis mil cruzeiros.
A Pavão Dourado chegou em quarto, recebeu a Taça Oesteval Metropolitana, mias cinco mil cruzeiros e, por fim, a Imperiais do Samba que, embora desclassificada, recebeu a Taça Esportes Imperial mais três mil cruzeiros.
Além dos atrasos, o público ainda suportou a chuvarada que despencou na hora do desfile.
Curiosa foi a nota que a Polícia Militar divulgou logo em seguida ao Carnaval. Dizia que a festa tinha sido tranquila. Só prenderam oitenta pessoas, entre as quais, quinze sambistas da campeã Garotos do Samba por embriaguez e desordens.
Coisas da vitória…
Já no Praia Clube, como era esperado, o sucesso foi absoluto. Talvez tenha sido o maior Carnaval Praiano daqueles anos. Brincaram praticamente todos os sócios e suas famílias. (Fonte: Jornais da época, História do Carnaval de Uberlândia (Antônio Pereira da Silva).

Jornalista e escritr – apis.silva@terra.com.br

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