Ana Maria Coelho Carvalho*

Certa vez caí no golpe das ciganas que vendiam grossos colares de ouro trançado, mas que não eram de ouro coisíssima nenhuma. E também caí no golpe do mico. Como existe larápio de todo tipo, resolvi divulgar o caso para as pessoas ficarem espertas, mesmo sabendo que muitas pensarão que fiz papel de tola. Mas é porque não conhecem o larápio. Ele é ardiloso, insistente, envolvente, astuto. E talvez um pouco louco, pois fica agressivo e ameaçador se a gente não concorda com ele.
Tudo começou numa bela manhã, com o interfone tocando. Era um senhor de meia idade, claro, mais pra gordinho, camiseta vermelha e calças jeans, bem aparentado. Disse que tinha um macaquinho de estimação, o Kiko, que andava com ele pra todo lado, no seu ombro. E que o mico tinha pulado quando passavam na calçada da minha casa e estava em cima do telhado. Do passeio, o homem assobiava e chamava:-“Kiko, Kiko”. Nisso, apareceram dois dos meus netinhos, atraídos pela confusão, e todos ficamos olhando pra cima. Um disse que estava mesmo vendo o mico. Começamos a chamar e nada. O homem então pediu para eu abrir o portão para ele entrar no jardim e chamar mais de perto, pois o mico só atendia a ele. Com pena do macaquinho, acabei abrindo. O homem chamou algumas vezes e depois foi entrando resoluto e determinado pela casa adentro, afirmando que o mico já devia estar no quintal e que iria procurar por lá. Em uma das mãos, carregava um saquinho de ração (ainda bem que não era um revolver). Atrás dele, a minha cachorrinha york latindo freneticamente, eu e os dois netinhos ajudando a procurar. Na sala de TV o Zé, meu marido, assistia a um noticiário e não percebeu nada (devia estar cochilando). Depois do quintal, o homem subiu as escadas para os quartos com o cortejo atrás, olhando tudo e fingindo ver o macaquinho. Eu indignada, mandando ele sair e avisando que ia chamar meu marido e a polícia. Ele ficou agressivo, dizendo que eu não queria ajudá-lo a encontrar seu bichinho. Só saiu quando quis, não estava nem um pouco intimidado com o cortejo. Fiquei pasma e boquiaberta com o ocorrido. Passado um tempo, o interfone tocou novamente. Eram minhas duas vizinhas, com os olhos arregalados. Vieram confirmar se um homem tinha entrado na minha casa para procurar o Kiko. Ele tinha entrado lá também, com a mesma história e procurou o Kiko até dentro das gavetas. Ficamos as três impressionadas, mas ele não roubou nada.
Semanas depois, uma amiga que morava no bairro Lídice contou-me a mesma história. O homem entrou na casa da sua vizinha e roubou o laptop, quando a vizinha foi ao quintal ver se o Tito estava lá. Ele só trocou o nome do mico e chegou de moto, estava mais sofisticado. A minha amiga tem câmera de segurança que filma a rua toda e vi a filmagem. Nela, o mesmo larápio que entrou na minha casa saiu rapidamente da casa da vizinha carregando o laptop, subiu na moto e fugiu, safado!
Bem, este é apenas mais um golpe que circula por aí, ao lado, por exemplo, do bilhete premiado. Conheço uma pessoa que caiu nesse golpe e perdeu um bom dinheiro. E na época do Natal, tem o golpe do envelope, quando aparece gente estranha para recolher o envelope com o dinheiro dos lixeiros e dos varredores de rua, mas já estou esperta nesses casos.
Em tempos de crise, é preciso redobrar a vigilância, pois provavelmente surgirão golpes mais mirabolantes do que o do Kiko (ou Tito). E sempre existirão pessoas como eu para acreditar.

*Bióloga – anacoelhocarvalho@terra.com.br

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