Marília Alves Cunha*

Temos hoje dois importantes meios de comunicação a nosso dispor: a televisão e a Internet. A TV, surgida na década de 50, revolucionou o mundo, tornando-se presença quase que obrigatória em todos os lugares. Mestra na arte do entretenimento, com sua múltipla e diversificada programação, tem logicamente seu lado obscuro, principalmente quando se serve de ampla penetração para influenciar a opinião pública, através de manipulação de dados e informações. Na propaganda, mesmo que subliminar, reside seu grande negócio. É fácil verificar a sua influência na percepção das pessoas sobre a desejada felicidade, reduzindo-a quase que completamente ao mero consumo. A internet não é tão novinha quanto a gente pensa: foi criada em plena Guerra Fria com objetivos militares. Mas foi a partir da década de 90 que evoluiu incrivelmente, alcançando a população do mundo todo. Tem também seu malefícios, principalmente no uso indevido que fazem dela os jovens colocando-a, não raras vezes, como centro de seu mundo e de suas vidas.
De minha parte, tenho paixão por estes meios de comunicação. Quando usados adequadamente, proporcionam momentos indescritíveis de prazer. Dia desses, por exemplo, descobri no YouTube uma gravação da final do Festival de Música da Record. O ano era 1967. Lembrei-me de ter assistido a todo o festival pela TV, rodeada dos filhos ainda crianças, da família e de amigos. Emoção grande misturada à lembrança de velhos tempos, rever estes grandes momentos da música brasileira. Lá estavam compondo o júri Chico Anysio, a meu ver o maior humorista que este país conheceu ( gênio, entendia também de música) e Sérgio Cabral, sambista e crítico musical, pai do hoje conhecido e execrado Sérgio Cabral Filho, ex-governador que jogou o Rio de janeiro prás cucuias… Pobre pai, de memória perdida para que não passasse vergonha…
Caetano Veloso, magricela e tímido, com a sua “Alegria, alegria” caminhou contra o vento, sem lenço e sem documento. Firmava-se aí, a consagração do novo baiano como grande e moderno letrista. E veio atrás um Chico Buarque muito jovem, com voz tímida e olhar confiante, cabeça cheia de ideias e coração gemendo “tem dias que a gente se sente/como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente/ ou foi mundo então que cresceu”. Maravilha pura, a enfeitiçar nossos ouvidos! O campeão Edu Lobo apresentou-se sério, compenetrado e junto com Marilia Medaglia entoou Ponteio, uma obra de arte em forma de música: “Era um, era dois, era cem/ era o mundo chegando e ninguém/ se soubesse que eu sou violeiro/ que me desse amor ou dinheiro”. E é claro que o Gilberto Gil estava lá, junto com nada mais nada menos que “O Mutantes” da Rita Lee, numa mistura esquisita e gostosa de berimbau, viola, instrumentos eruditos e guitarras. O Domingo no Parque, do Gil, foi uma história de amor, sangue e traição dos personagens José, João e Juliana. Pura sofrência antes dos sertanejos tomarem conta do pedaço. Roberto Carlos vaiado (de leve) e Sergio Ricardo sofrendo estrondosa vaia e quebrando o violão também foram protagonistas da memorável noite. Fui tomada de um prazer enorme, revendo este registro magistral da música brasileira, ouvindo músicas geradas num momento especial que consagrou grandes nomes da nossa MPB. Era o ano de 1967, em pleno regime militar. Obrigada, YouTube!
“Solto a voz nas estradas/ já não posso parar/ meu caminho é de pedra/ como posso sonhar/ sonho feito de brisa/ vento vem terminar/ vou fechar o meu pranto/ vou querer me matar/. Esta preciosidade tem dono! Milton Nascimento, o Bituca para os íntimos compôs “Travessia” para nos inundar de emoção. É maravilhoso assistir documentários na TV sobre o Clube da Esquina, no qual o Bituca e companheiros como Lô Borges e mais parceiros, grande amigos, se reuniram para criar um importante movimento musical que conquistou o mundo. Orgulho de ser mineira, de pertencer a estas montanhas gerais. A boa, instigante e feiticeira música de Milton nascimento e seus amigos nos toca de várias maneiras: saudade, emoção, patriotismo. Patriotismo sim! Orgulho da terra que gerou tanta alma, tanta sensibilidade, tanta beleza!
Pois é, gente! A televisão e a internet são coisas maravilhosas. Basta somente escolher os caminhos para os quais elas nos levarão.

*Educadora e escritora – Uberlândia – MG

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