Marília Alves Cunha*

“Não subestime o povo brasileiro” – por incrível que pareça estas palavras foram ditas pelo Ministro do STF, Marcos Aurélio de Mello, se não me engano lá pelos idos de 2014, antes das eleições presidenciais que iriam sufragar novamente o nome de Dilma Roussef como presidente do Brasil. O país já patinava em inúmeros problemas, com uma presidente incapaz de governar, o presente confuso, desequilibrado e improdutivo, o futuro um prenúncio de erros e contradições. Campanha milionária, propagandas mentirosas mas eficientes e candidatos de oposição fracos e impopulares levaram ao final conhecido, apesar do peso de um Mensalão que levou as grandes figuras do PT para o xilindró. E grande e dolorosa foi a luta para que se tentasse restabelecer, ao menos em parte, o mínimo de moralidade e condições de governabilidade a um país afundado num mar de corrupção e desvios do que seria moral e economicamente aceitáveis. Dona Dilma é cassada, tudo feito de acordo com o figurino constitucional. E para espanto dos brasileiros, em encenação mostrada ao vivo e a cores pela TV, numa célebre manobra dirigida pelo Presidente do Senado à época e por membro do STF, a ex-presidente teve mantidos seus direitos políticos. O vice-presidente Michel Temer, eleito pelo PMDB, partido que sempre surfa na onda de outros partidos, carregou por quase 2 anos o cargo de presidente, carregando também o peso da participação em esquemas de corrupção e um fim de carreira melancólico. O povo brasileiro foi subestimado ao máximo e sem piedade, contrariando as palavras do Senhor Ministro.
No momento o Brasil segue sob nova direção. Torcemos para que tudo dê certo, que consigamos nos recompor depois de um ciclo perverso de decadência, imoralidade e ilegalidade. Temos um presidente eleito sob o manto da democracia, que faz um esforço gigante para governar, premido por um outro lado que faz um esforço gigante para que ele não governe.
E nós, eleitores? Nós, detentores do poder de voto, continuaremos a ser subestimados? Continuaremos a ser atraídos pelo canto da sereia e nos deixaremos levar por palavras bonitas, promessas vazias, pelo poder sedutor de falsas atenções e enganoso interesse? Ou vamos mudar o rumo desta prosa, pesar nossas escolhas, nos responsabilizarmos pelo nosso voto sabendo que ele é o motor da democracia?
Ficamos tempo demais voltados quase que inteiramente às ações do governo federal, do Congresso Nacional e até aos passos dados pelo STF. Foram protagonistas incessantes neste último ano para o bem e para o mal, para erros e acertos. E nos esquecemos ou pouco nos lembramos do que está mais perto de nós, do que mais diretamente nos atinge. De repente surge algo para nos lembrar que temos uma Câmara de Vereadores eleita pelos uberlandenses, que deveria estar agindo no sentido do bem coletivo, no sentido da promoção do bem geral da comunidade que os acolheu como seus representantes, através do voto. Infelizmente este “algo” foi um tapa na cara da nossa gente. Parecia inacreditável! Mas o desenrolar da história mostrou que, triste fato, votamos em pessoas erradas, que traíram a nossa confiança, que nos subestimaram.
Estamos no limiar de novas eleições. Penso que alguns fatos recentes mostraram aos políticos que muita coisa tem mudado, que os eleitores brasileiros estão mais conscientes de suas escolhas, estão mais participativos e mais críticos. Que estão mais interessados e à custa de muito sofrimento e decepção, aprendendo a lição de casa. Lembro aos ilustres políticos e aos que desejarem ser, as palavras do Ministro marco Aurélio: Não subestime o povo brasileiro. O voto, astro rei da democracia, deve ser levado a sério. O eleitor pode ter sido enganado muitas vezes, pode ter ficado bastante tempo na extraordinária experiência do erro/acerto, mas tem aprendido muito com as histórias que a vida tem lhe contado.

*Educadora e escritora – Uberlândia – MG

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