Gustavo Hoffay*

Mudar de opinião e seguir quem te corrige é também o comportamento do homem livre, como disse certa vez Marco Aurélio, Imperador Romano.No meu caso, particularmente, ninguém corrigiu-me e sim a minha própria observação a partir de uma vivência relacionada ao uso de drogas, tempos depois na prevenção ao uso dessas substâncias e finalmente no auxilio à reabilitação de dependentes químicos. Demorei alguns anos para “sair de uma convencional caixinha” e mudar o meu ponto de vista a respeito de uma polêmica questão: a liberação das drogas em nosso país; mesmo porque as funções que eu exercia nos últimos 22 anos ( inclusive dois anos como diretor do Conselho Municipal Antidrogas e depois Conselho Municipal de Entorpecentes), impediam-me de mudar o foco sobre aquilo que eu defendia e pregava em reuniões, palestras, seminários e mesmo em artigos de jornais e blogs diversos, além de ter editado por dez anos o único jornal da região voltado para notícias e fatos relativos à dependência química e ainda apresentado um inusitado programa de rádio onde eu, também, defendia a continuidade da proibição do consumo, distribuição e comercialização de qualquer droga ilícita. Aos poucos, com o passar dos anos, diante do surgimento e descoberta de novos fatos relacionados ao uso indiscriminado daquelas substâncias químicas e ilícitas, associei idéias e pessoais experiências acumuladas ao longo de pouco mais de duas décadas e passei a perceber que a insistência na proibição do uso de determinadas drogas seria uma perda desmedida de tempo e dinheiro público, verdadeiros murros em ponta de faca e visto que fatos e descobertas já delineavam um novo rumo diante de evidências claras e indiscutíveis, relativamente aceitáveis a partir de considerável parcela da sociedade.É bastante visível, sensível e sofrível as conseqüências do uso generalizado de drogas em qualquer parte deste país, quanto mais considerando-se inéditos meios utilizados por toda uma moderna logística e que faz chegar, até com facilidade e a preços populares, vários tipos de drogas entorpecentes ou estupefacientes a qualquer dos seus antigos ou novos usuários. Trata-se de uma mega e bilionária estrutura montada por grandes traficantes e que envolve os mais diversos recursos materiais, humanos e tecnológicos, com ramos que alcançam todos os setores da sociedade e que têm milhares de operadores treinados e portanto muito bem preparados para atenderem a uma grande e crescente demanda, o que termina por gerar conflitos de interesses que vão desde a divisão de territórios para a venda de drogas, comércio de armas e munições, suborno de autoridades, assassinatos, extorsões e cooptação de agentes públicos, além de uma série de outras ações criminosas daí decorrente e que afetam em muito a vida em sociedade. Charles Bowden, americano que foi um escritor e jornalista de muito sucesso em seu país e que escreveu diversos artigos sobre o caos provocado pelas drogas na fronteira do México com os Estados Unidos, certa vez disse que “a guerra às drogas cria uma guerra pelas drogas”; a juíza brasileira Maria Lucia Karam, por sua vez ressaltou que aproximadamente trinta mil assassinatos ocorrem no Brasil a cada ano, em função dessa guerra pelas drogas e “aquecida” pela proibição do cultivo, transporte e uso de muitas delas. Ora, há guerra pela conquista de territórios para a distribuição e venda das aguardentes 51 e Ypioca, das cervejas Antártica, Skol e Brahma? Os donos dessas empresas já mataram ou mandaram assassinar alguns dos seus concorrentes? Claro que não, cada um tem o seu publico, a sua freguesia e todos convivem e sempre conviveram harmoniosamente enquanto comercializando uma droga liberada: o álcool e cujo uso abusivo e constante já foi responsável por milhares de mortes em nosso país. Depois que a Suíça legalizou a heroína, acabou a violência originada de traficantes e ninguém foi assassinado em quinze anos desde que aquela droga foi liberada. Quantos bilhões o governo brasileiro já gastou na guerra contra as drogas? Quantas famílias perderam seus filhos em função dessa guerra? Quantos milhares de cidadãos superlotam nossas cadeias em função das drogas que vendiam, produziam ou transportavam e que hoje geram um custo enorme aos cofres públicos, para que ali sejam mantidos enquanto cumprindo as suas respectivas penas? E o que adianta tudo isso se, ainda assim, continuamos a ostentar o inglório titulo de a maior violência armada e a pior crise de dependência química no mundo, aliado ao vergonhoso fato de que as drogas “correm soltas” dentro de nossas prisões? Mudei, sim, minha opinião a esse respeito e hoje coloco-me ao lado daqueles que defendem a legalização das drogas, como um meio eficaz de vermos diminuir a violência urbana e todo o tipo de mazelas sociais que insistem vigorar em nossas comunidades. Ofereça-se trabalho, lazer e cultura a jovens predispostos a lançarem mão das drogas para anestesiarem as suas carências e dores diversas: veremos então um Brasil aliado ao bem e desprezando o mal. Perdemos, sim, a guerra contras as drogas mas havemos de oferecer, imediatamente,uma sadia munição de esperança para quem é o principal alvo dos traficantes: nossas crianças e jovens. Havendo a crença (crescente) de uma vida melhor longe daquelas substâncias para as nossas futuras gerações, finalmente sairemos vencedores e enquanto felizes espectadores da falência de quem enriqueceu-se sob a ilegalidade do consumo de drogas em nosso país. Esperança, cultura, esporte, fé no que virá, auto-estima, espiritualidade, saúde e educação ao alcance de todos, constituem uma barreira natural contra aquelas substâncias que só atacam os fracos e vazios de vida.

*Agente Social – Uberlândia-MG

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