Antônio Pereira da Silva.

O velho Carnaval uberlandense foi cheio de curiosidades que os foliões dos tempos modernos desconhecem, a começar pelos primitivos bailes em casas de família onde se dançavam, em plena folia, valsas, xotes e mazurcas. Os Zés Pereiras, que eram pequenos blocos comandados pela gente graúda do comércio, pelos oficiais da Guarda Nacional, pelos profissionais liberais. Os “ataques” a residências – a golpes de confetes e serpentinas. E o “alarma”, que era um acontecimento totalmente estranho do qual raríssimas pessoas devem ter ouvido falar.
Vou explicar: o “alarma” antecedia o Carnaval e anunciava a sua chegada. Era uma batalha de confetes, serpentinas e lança-perfumes que ocorria em qualquer lugar de forma inesperada. Súbita. Geralmente se dava no cinema e o Custódio Pereira ficava danado porque sempre se estragavam algumas cadeiras. Quando ia chegando o Carnaval, rapazes, moças, senhores e senhoras da elite, muniam-se das armas carnavalescas que escondiam em bolsos e bolsas e ficavam em suspense aguardando qualquer motivo para a explosão.
No Cine Theatro São Pedro, já demolido, que ficava na rua Felisberto Carrejo, as senhoras ficavam inquietas nos intervalos, as bolsas sobre o colo já meio abertas esperando qualquer sinal, qualquer justificativa para romper-se a festa.
A música carnavalesca usada na cidade evoluiu lentamente. No começo, canções e valsas. Até a década de 20, ainda se cantavam músicas totalmente inadequadas, como a modinha “O Gondoleiro do Amor”, de Fábregas e Castro Alves. As músicas do Carnaval carioca chegavam com atraso enorme. Por exemplo, a polca “No bico da chaleira”, de Juca Storoni, que foi sucesso em 1909, no Rio de Janeiro, só foi cantada aqui em 1921, sob a forma de paródia. Como todos sabem, paródia é uma letra humorística que substitui a original. Quem saiu com essa canção na rua, porque, na época, o melhor Carnaval, de todas as classes, era na rua, foi o Grupo PINGA FORD E COMPANHIA. A letra substituta era nacionalista e propunha trocar a gasolina pela cachaça, como combustível.
Lá diz um trecho da paródia: “A gasolina, o Ford e as traquitanas, /Não valem nosso produto nacional.”
E conclama: “Amor, amemos as coisas brasileiras.”
Outra canção que recebeu paródia, nos velhos Carnavais, foi a modinha “O Gondoleiro do Amor” que, por artes do pessoal do jornal A Tribuna, virou “A Imprensa”. A canção “Dalila”, muito usada nos tempos românticos para fazer fundo às declamações melodramáticas, também veio parar no Carnaval uberabinhense como uma paródia crítica. Vou transcrever uma das dez estrofes que compunham o calhamaço da letra:
“Gifoni, Borges e Freitas, / Standard e mais ranhetas, / Tudo rapa um dinheirão. E chora raspando a estrada A Companhia enguiçada / Nas lutas da ‘invição’.” Companhia é uma referência à Companhia Autoviação do Fernando Vilela.
E havia o Corso, por fim. Era assim: rodeava a praça da República (Tubal Vilela), entrava na av. Afonso Pena e descia pela mão lentamente até a praça da Liberdade (depois Antônio Carlos e hoje Clarimundo Carneiro) que era contornada; entrava de novo na av. Afonso Pena e subia pela mão até a praça da República. Eram automóveis sem capota, pintados com desenhos a cores fortes, cheios de homens e mulheres fantasiados, atirando serpentinas e confetes, esguichando lança sobre a massa popular que circulava a pé, dançando, cantando, quase sempre fantasiada Participavam desse desfile de carros as famílias tradicionais, inclusive dos Agentes Executivos (antigos Prefeitos Municipal. E era um festão!

*Jornalista e escritor Antônio Pereira da Silva

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