Antônio Pereira da Silva*

O futebol foi esporte de elite no Brasil. Chegou com o paulista/inglês Charles Miller, em 1894, e logo foi adotado por engenheiros, técnicos e industriais ingleses residentes em São Paulo. Virou esporte de ricos, proibido a negros e pobres. Não foi à toa que chegou ao Triângulo através da escola das famílias abastadas da região, o Ginásio Diocesano, de Uberaba, que instituiu o seu “team” em 1903.
E como chegou a Uberabinha? Avenir Gomes foi estudante do Diocesano e conhecia o futebol de vê-lo praticado por seus colegas. Deve ter participado de alguma “pelada”. Trouxe de lá uma bola velha que foi bater no espaço vazio de um do canto do abandonado cemitério que havia na praça Clarimundo Carneiro. Não demorou muito e ajuntou uma molecada dando bicudas na pelota para qualquer lado, despreocupada com equipe, com gol. O negócio era bicar e correr atrás para bicar de novo. Isso deve ter acontecido antes de 1º. de dezembro de 1912, porque nesse dia, Avenir Gomes e Carmo Prudente (dono do Bar El-Dorado, que reunia a rapaziada “chic” da época) fundaram o primeiro time de futebol da cidade, o “União Foot Ball Club”, formado por “rapazes da nossa melhor sociedade”, conforme registrou um jornal da época. Houve um jogo entre eles próprios com o resultado de 3 a 0. Atuou como juiz o “valente foot-baller araguariense” Martinho do Nascimento. A notícia publicada pelo jornal O Progresso, não dá as escalações nem o local do jogo sendo provável que tenha acontecido na praça da República (Tubal Vilela). Após a peleja, houve comemoração no Bar El-Dorado.
Outros esquadrões se formaram a seguir. Um deles, o Uberabinha Foot Ball Club que perdeu para o Commercial de Araguari por 4 a 0, em 1914. A derrota já era esperada. O Commercial era time entrosado, regular, enquanto o Uberabinha vinha de uma longa temporada sem jogos nem treinos. Esse encontro deu-se no “ground” da Praça da República. Outros clubes: o Uberabinhense e o Collegial que fizeram duas partidas em junho de 1914. No primeiro jogo, o Collegial venceu por 1 a 0. No segundo, o Uberabinhense venceu por 2 a 0. Jogos realizados na Praça da República.
Nesse tempo, a torcida era constituída por “excelentíssimas famílias” e “cavalheiros da nossa melhor sociedade” – os homens compareciam de terno, gravata e chapéu e as senhoras e senhoritas de sombrinhas. Indefectíveis eram as bandas que destacavam musicalmente as melhores jogadas e os gols principalmente. O Collegial era a equipe do Collégio Bandeira. Entre seus atletas estava o Benedito Sapinho, ex-funcionário da Prefeitura Municipal de Uberlândia, falecido há alguns anos.
Em meados de 1914, fundou-se o Commércio Foot Ball Club “sob os auspícios de pessoas gradas do nosso meio social”. A inauguração se deu com um “match” treino entre os seus dois “teams” (titulares e reservas), no “ground” dr. Duarte. Esse campo de futebol ficava na avenida Cesário Alvim, atrás da Santa Casa, que era na avenida Floriano Peixoto.
Um dos jogos noticiados pela imprensa, nesse ano, ocorrido entre o primeiro e o segundo time do Commércio, teve um curioso prêmio: uma bola de futebol. Houve ainda um outro time: o Spartano, fundado pelo empresário Américo Zardo. Numa reunião do Uberabinhense, resolveu-se transformá-lo em um novo time: o Rio Branco Foot Ball Club que teve longos anos de atividades. A sua diretoria era: Presidente: Adolfo Fonseca e Silva; Vice: dr. Leopoldo de Castro; 1º Secretário: Leopoldo Cupertino; 2º Secretário: Antônio Carlos de Araújo; Orador: prof. Honório Guimarães; Procurador: Simphrônio de Araujo; 1º Capitain: Avenir Gomes dos Santos e 2º Capitain: Martinho Nascimento. Alguns atletas do Rio Branco foram bastante prestigiados: Sinfrônio Faria, Goianinho, Alceu, José Fonseca, Rafael Tolini, Manoel Sapateiro, Olivier Toledo, Ponte Preta…
Ramiro Pedrosa, atleta dos anos 30, referia-se a um goleiro dos tempos pioneiros com grande entusiasmo: Fefé – que tirava de cabeça, ou de “charles” (chaleira), os petardos que desferiam contra sua meta. Costumava amaciar no peito do pé as bolas que vinham pelo alto e sair jogando com os companheiros como se fosse um “central”… Embora fizesse grande sucesso com a torcida, o Fefé, de vez em quando enterrava o time. ((Fontes: Jerônimo Arantes, Ramiro Pedrosa, O Progresso).

*Jornalista e escritor

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