Amauri Paixão*

Desde o final de outubro de 2018 as empresas que vendem investimentos no mercado financeiro impulsionaram uma mensagem otimista de que a prosperidade para a classe média estaria chegando com a posse do governo Bolsonaro em janeiro de 2019, sem que o próprio candidato eleito priorizasse essa exaltação gananciosa em seus eleitores.
Em 10 de abril, cem dias do novo governo, paira em nossa memória Luciano Huck, festejado homem de sucesso das tardes sabatinas da TV Globo, protagonizando a propaganda eufórica dos ganhos e rendimentos robustos que se multiplicariam com as fileiras anti-trabalhistas ocupando o palácio do planalto; e sendo feita a semeadura das riquezas pelas agências do sistema financeiro nacional. Uma elite empresarial promovendo negócios e seduzindo clientes, na esteira eleitoral do presidente interiorano.
Jair Messias Bolsonaro, 1970, habitava no vale da ribeira paulista, no humilde município de
Eldorado. Dos onze aos dezoitos anos o futuro presidente conviveu entre quilombolas, o extrativismo natural, e assimilou os costumes do homem simples da roça do interior “sudeste” do Brasil. Chegou ao governo sob novidades e surpresas culturais, após ascensão do jovem à carreira militar como tenente e parlamentar no Rio de Janeiro e Brasília. Os financistas, jornalistas e literatos, a modernidade, nunca foram parte dos costumes do novo presidente.
A classe média alta e outros galgaram na candidatura de Bolsonaro e desfrutaram gozo coletivo com o banqueiro e sequaz do ditador chileno Pinochet, este Paulo Guedes, elevado a demiurgo da economia nacional e restaurador da ordem e progresso do milagre brasileiro.
Vamos expressar aqui, aquilo que é nossa praia e cotidiano vivido nas periferias mineiras como padre, sacerdote partilhando da intimidade dos humildes, pobres e aflitos.
Foi imposta à sociedade uma crença de que os governos trabalhistas com sua gana de subordinar tudo à proteção estatal causou um flagelo no Brasil, consumindo prodigamente o tesouro nacional e impondo uma divida pública refletida e anotada na contabilidade da previdência e seguridade social.
De repente a profecia das redes sociais no twitter indigitou o idoso miserável do BPC, o agricultor da aposentadoria rural e o trabalhador urbano incapaz de se capitalizar por uma poupança previdenciária, juntamente com a maldição comunista, os flagelos apocalípticos assolando a impoluta família brasileira.
Pastores pentecostais apopléticos se apresentaram na imprensa ao lado do ex-tenente esfaqueado disseminando os ardores evangelistas e revestindo o quase santo presidente eleito com a aura inexorável de um salvador da pátria.
Essa confiança na prosperidade calcada num estilo de vida de classe média, um difuso instinto de provincianismo social e cultural – com anomia e autoritarismo institucional – tem sua figuração máxima numa caricatura de sátiro grego-romano, encravada num rancho, na Virgínia- EUA, no personagem guru Olavo de Carvalho.
O satirismo se tornou a práxis dos filhos de Bolsonaro ao lado do presidente. É só confirmar nos twitters da família do ex-tenente, nos impropérios do guru e a reprodução insana da multidão de seguidores.
É esse culto satírico que um profeta cristão comprometido com o Deus do Amor deve repudiar. Homens devassos, luxuriosos, hedonistas, que acreditam na violência armada e na meritocracia que afronta os humildes, fracos e empobrecidos.
Com seus distúrbios primitivistas, obstinação sexual e a imaginação simbólica dos sátiros, esta nova administração reacende um instinto animalesco e brutal como percepção e plataforma de entendimento dos conflitos e problemas sociais.
Nestes cem dias de governo, nota-se nas periferias urbanas um silêncio sepulcral, com os idosos, os herdeiros da agricultura familiar e os trabalhadores mais humildes, uma espécie de estado catatônico sem se entender o profeta/mito, novo presidente, que ainda não entregou suas promessas generalistas. O ex-tenente e seus filhos continuam no twitter fantasiando suas batalhas contra o comunismo; alienados com seus parceiros dos festejos satíricos, viajando para o eldorado da meritocracia em que os humanos direitos serão agraciados com a prosperidade e os nefastos, vagabundos e preguiçosos protegidos do estado serão fatidicamente entregues a sua má-sorte do acaso.

Sacerdote e Advogado*

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