Rafael Moia Filho*

É hora de muitos experimentarem
aquela estranha sensação do
uso do raciocínio em nosso país (Fernando Pinho).

Os oitenta dias que separam a posse do presidente mostram claramente que o discurso de ódio ao PT, que estava fora do governo há dois anos e ao comunismo que nunca reinou em nosso país desde a instalação da republica, é muito mais fácil do que o ato de governar um país como o Brasil.
Lidar com o orçamento, com nossa economia sempre instável e recessiva, um parque industrial sucateado ao longo dos últimos trinta anos, criminalidade crescente, trinta e cinco partidos políticos sem ética, adeptos de um fisiologismo sem igual no planeta é tarefa para quem tem capacidade e muito conhecimento.
Não é a toa que dizem em tom de brincadeira: “O Brasil não é para amadores, mas sim profissionais”. Embora a direita não faça essa analise publicamente, o processo de desgaste de um impeachment aliado ao péssimo governo de dois anos de Michel Temer foi ainda pior para o país, deixando sua economia em situação muito grave.
Infelizmente nestes oitenta dias Bolsonaro não provou que possui um Projeto de Governo embasado em novas ideias e programas, ao contrário, nos faz entender que não tem projeto algum para o país, além de seus discursos e de seus filhos com caráter ideológico contra a esquerda. Coisa de amador, que não entendeu definitivamente que a campanha eleitoral acabou em outubro/2018 e que agora governa para 200 milhões de brasileiros, inclusive os 62% que não lhe deram os votos.
As dificuldades são inúmeras, desde a economia em recessão, aos 12 milhões de desempregados, que se somados aos 15 milhões de brasileiros em atividades informais sem registro em carteira formam um exército. Sem contarmos com os mais de 10 milhões com baixa renda, sem capacidade de alimentar a economia. Temos 200 milhões de brasileiros e destes, seguramente, apenas 20 milhões têm poder aquisitivo para movimentar o mercado consumidor.
Assim como aconteceu nos dois anos de desgoverno de Michel Temer, a única solução proposta pelo novo governo é a Reforma da Previdência. Em paralelo nada mais está sendo feito, discutido ou realizado pelo governo. As obras de infraestrutura tão importantes para gerarem empregos estão paralisadas em todos os setores da economia. Não tem construção de estradas, hidrovias, ferrovias, nem a devida recuperação do setor de construção civil, que normalmente alavanca milhões de empregos na habitação.
Enquanto discutem ideologia de gênero, comunismo e outras sandices o país continua parado, sem que ninguém perceba o desastre para o qual estamos caminhando celeremente.
Acreditar que a aprovação de uma reforma da previdência vai resolver todos os demais problemas estruturais do país é não ter inteligência para enfrentar uma gestão pública num pais tão complexo.
Claro que é cedo, se analisarmos o período de quatro anos que 38% dos eleitores concederam a família Bolsonaro para governar o Brasil, porém, o tempo passa, melhor, voa, e se nada começar a ser feito de prático, ficaremos a deriva afundando cada vez mais no atoleiro da incompetência e da burrice demagógica da discussão ideológica político partidária.
A fala do presidente da Câmara Federal Rodrigo Maia durante entrevista concedida ao jornal O Estado de São Paulo resume o governo Bolsonaro: “Este governo Bolsonaro é um deserto de ideias, não existe projetos exceto o da Reforma da Previdência, se existe ninguém sabe nem no governo nem fora dele”.

*Escritor, Blogger e Gestor Público.

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