Marília Alves Cunha*

Escrevi por muito tempo no  Correio de Uberlândia, como colaboradora. Esplêndido jornal diário que trazia as muitas notícias desta cidade querida. Acabou melancolicamente, de um dia para o outro, assim como findaram muitas coisas que não suportaram, talvez,  a modernidade digital ou quem sabe, a crise obscena que se abateu sobre o país. Uma das minhas primeiras crônicas contava de um casal de passarinhos que, para minha fortuna,  fez morada no parapeito da minha janela. Lá o casal procriou e pôs três filhotes neste mundão de Deus. Passei muito tempo observando a história, do namoro ao casamento, dos ovos aos filhotes e ao final, da debandada geral, deixando restos secos e silenciosos…

Agora, depois de tanto tempo, a história se repete. Lá está uma avezinha quieta, de olhar maternal, esquentando dois ovinhos. Várias vezes ao dia me vejo em respeitosa contemplação, xeretando … A  mamãe já se acostumou comigo, trocamos olhares. Ela se mantém  como pode, exposta às ardências do sol e aos tropeços da chuva. Eu, comovida, imploro aos deuses da natureza que não desabem  sobre tão frágil morada, tão frágeis vidas…

A vida merece ser protegida, como a vida merece ser protegida! Não cabe a lama em velocidade arrasando tudo, lama que não vem dos deuses, não vem da natureza, lama juntada aos poucos pelo demo da ambição e da ganância que tudo pode, tudo inferniza, tudo arrisca, tudo erra. De onde saiu tanta assim, meu Deus, que cobre a terra, casas, plantas, animais, gente, que se imiscui nos rios claros e serenos, amarronzando tudo. Minas Gerais, nossa terra, terra das minas, das minas gerais. Mariana, lição não aprendida ,desastre monumental a varrer do mapa muita vida e muita história, muita gente mineira, sangue bom, que só ansiava pelo trabalho e pela vida. Brumadinho, valham-nos todos os Santos, cruciante procissão de choro e mágoa, raiva e dor sem remédio, de arrocho no peito,de olhares vazios diante do imponderável. Os rios correm lentos e tristes, tristes são as faces dos ribeirinhos. Rio Doce, Rio Paraopeba, ninhos de peixes, fartura de água, como deitar no mar, no Velho Chico suas águas tristes e barrentas?

Diante da vida que se forma no ninho pequeno e frágil, no parapeito de uma janela, rogo aos deuses das tempestades que não desabem sobre ele. Que suporte as forças naturais, para que a vida, maravilhosa vida, floresça em seu esplendor. E diante da nossa Gerais, tão rica e explorada, tão usada e abusada, cheia de perigos que se escondem de nossos olhos leigos, pronta a qualquer momento a explodir em lama e lágrimas, diante da vida que periga, a que deuses recorrer?

Educadora – Mariliacunha16@hotmail.com

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