João Batista Domingues Filho*

            Big Tech são grandes empresas com plataformas de uso intensivo de dados. São eficientes carrascos da política democrática, em moldes constitucionais. Empresas de tecnologias norte-americanas ocupam os cinco primeiros lugares entre as dez maiores do mundo por capitalização de mercado. Big Tech é o sintoma do enfraquecimento das leis antimonopolistas, concomitante a privatização do bem-estar e demais funções do Estado de bem-estar social. Tanto a esquerda, como a direita deliram com suas utopias sobre a Big Tech como a possibilidade de compromisso político e econômico: esperança de que um New Deal nasça dessa revolução digital. A digitalização criando nova identidade política e cosmopolita entre os cidadãos, com sistemas econômicos flexíveis e descentralizados, sem cair nas armadilhas do planejamento central. Ecologicamente, a Internet das coisas produzirá mercadorias e serviços com custo marginal zero. Tecnologias digitais modificando setores estagnados da economia, desde a educação à saúde, com novos modelos de negócios, processos e instituições. Estado de bem-estar social, como a Fênix, renascido das cinzas. Economia global fluindo sem transformações políticas sistemáticas. Esquerda e direita demonstram suas habilidades esquizofrênicas com essas compreensões da Big Tech. São Estapafúrdias tais esperanças com a Big Tech, dado que materializam relacionamentos e práticas mais hierarquizados e centralizados, com lógica econômica interconectada, com coleta massiva de dados, gerando, sem limites, a acumulação do capital, corroendo a liberdade e igualdade das sociedades contemporânea. Big Tech é a ascensão das plataformas digitais, gerando a privatização do Estado de bem-estar, onde as atividades cotidianas são dependentes, em excesso, dessas grandes empresas de tecnologia, sem transparência e controle público, como se fossem invisíveis e inofensivas aos cidadãos. De fato, Big Tech é o exercício do poder global, com interesses mercantis ocultos, com lobistas vendedores de projetos de dominação tecnológica da existência social dos seres humanos. É tecnologia aplicada à geopolítica, à finança global, propiciando o consumismo desenfreado, com acelerada apropriação corporativa de todas as dimensões da existência humana em sociedade e privada. Essas ideias e fatos são do Morozov, Eugeny no livro: “Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política.” São Paulo: UBU Editora, 2018.

            Economia global é a principal produtora de todo tipo de risco para o funcionamento da democracia com graus crescentes de igualdade e liberdade, em termos da resultante histórica, institucionalizada, no Estado de bem-estar social. Big Tech substitui a “ferramenta” democracia para criação e administração da sociedade contemporânea desenvolvida. Big Tech engendra “ferramentas” de produção de riqueza social, cuja governação do Estado democrático não tem poder sobre essa riqueza socialmente produzida para redistribuí-la, democraticamente, dado que esse sistema global das grandes empresas de tecnologia tem a governança global. Risco para a democracia é vivenciado por meio do espanto generalizado: “como isso pode acontecer” com a democracia mundial. Resultado social: inércia e dúvidas para a tomada de quaisquer decisões. É a materialização desse fato social denominado “sociedade de risco”. Vivemos período socialmente complexo para o exercício de quaisquer poderes público ou privado. Instituições existentes, em todos os sentidos, são produtoras e legitimadoras desses “riscos”. Organizações de interesses, sistema judicial e a política, reduzidas aos efeitos perversos: vida social resultante não contida, intencionalmente, nas ações sociais desses indivíduos. Sociedade digital, pensando analogicamente para mitigar os riscos, com receitas anacrônicas, numa economia dominada pelas gigantes digitais, as maiores geradoras de todo tipo de riscos inimagináveis para a sociedade contemporânea. “Como isso pode acontecer?” Sociedade de risco contemporânea tornou o ser humano escravo das probabilidades racionais e irreais, dado que não tem mais a certeza de nada, é escravo dos “especialistas” da Big Tech. Tese do sociólogo alemão Ulrich Beck (1944-2015) no livro: “Sociedade de Risco – Rumo a uma Outra Modernidade.” Editora 34.

            Brasil é oitava economia do mundo, produtor estratégico de alimentos e de energia, com seu rentismo dos lucros fáceis, com desaceleração do PIB, impávido contra si mesmo, frente aos riscos vivenciados pelo mundo das Big Tech.

*Cientista político

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