Ana Maria Coelho Carvalho*

As imagens da África mostrando crianças desnutridas e famintas sempre me chocaram. Sei que não é preciso ir tão longe, temos muitas crianças passando fome no Brasil, embora o país tenha saído do Mapa da Fome em 2014. Li, há tempos, uma crônica na Folha sobre crianças morrendo de fome no nordeste. Uma dessas crianças, nos últimos momentos, perguntou: “mãe, no céu tem pão?” Nunca me esqueci dessa frase.
Mas a situação da África é alarmante. Quando pequena, perguntavam-me o que eu seria quando crescesse e eu respondia: “missionária na África”. Inesperado para uma criança de cidade de interior, sem acesso a informações, sem TV e sem conhecer nada da situação mundial. Assim, há anos atrás, fui conhecer a África. Emocionei-me ao pisar no solo africano, ao atravessar a savana cheia de avestruzes, ao visitar Soweto, a maior cidade da África do Sul com população só de negros.
Hoje, fico angustiada com as fotos que vejo. Em uma delas, bastante divulgada na mídia, há uma criança africana de sexo e idade indefinidos, ajoelhada e encurvada sobre o chão árido e seco. Sem roupas, braços longos e fininhos. É possível contar o número de costelas, pois ela está com a pele sobre os ossos. Enfeitando o pescoço, um colar de contas brancas (ela não tem nada, só o colar). Bem perto da criança, à espreita, um abutre espera pacientemente sua morte para se alimentar do corpinho frágil. A criança está morrendo de fome e o abutre simplesmente espera.
Decerto ela nunca teve um prato de comida decente, um sapato, uma roupa. Com certeza, nunca tomou um sorvete, chupou um pirulito ou teve um brinquedo. E a foto mostra a criança agonizando, de fome. Fico pensando no fotógrafo que tirou a foto: será que ele retirou a criança de lá, ou a deixou para o abutre? Ou será que Deus, em sua infinita misericórdia, carregou a criança em seus braços?
Ver uma criança morrendo de fome é um dos fatos mais tristes da humanidade. E essa dor não é só minha, é de todos nós. Dor misturada com sentimento de frustração, por não sabermos como repartir o pão. Com sentimento de culpa, por termos tanto o que comer, quando outros não têm nada. Com sentimento de desespero, por sabermos que este não é um fato isolado. De acordo com dados da ONU, um em cada seis habitantes do planeta sofre de desnutrição grave e permanente. A cada cinco segundos, morre uma criança de fome no mundo, são mais de seis milhões por ano. Em 2017, havia 821 milhões de pessoas passando fome no mundo e uma em cada nove pessoas no planeta foi vítima da fome.
Os dados são alarmantes e é preciso lembrar que, na Terra, somos todos irmãos. A dor de um é a dor de todos. O chefe indígena Seattle, em 1854, já sabia disso. Em uma carta ao presidente dos Estados Unidos, que queria comprar suas terras, escreveu: “a terra não pertence ao homem, o homem é que pertence a terra. Todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. O que ocorre com a Terra, recairá sobre os filhos da Terra. O homem não tece a teia da vida, ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizermos ao tecido, fará o homem a si mesmo”. Assim, cada um de nós morre um pouquinho junto com essas crianças.
Por isso, precisamos fazer a nossa parte. Quem sabe como a Angelina Jolie, que adotou três crianças. Dentre milhões de crianças morrendo de fome, apenas três salvas não faria diferença. Mas para aquelas três que Angelina salvou, ela fez toda a diferença.

Bióloga – anacoelhocarvalho@terra.com.br

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