Shyrley Pimenta*

A escola pode ser um lugar penoso, principalmente pela sua incapacidade de lidar com a multiplicidade de facetas e ritmos de seus educandos. Não é á toa que um número cada vez maior de crianças e jovens dão as costas à aprendizagem escolar. E acabam sendo rotulados de alunos com “perturbações de conduta e comportamento”.
As causas da dificuldade de aprendizagem são muitas e articulam-se em torno do educando, da escola e da família. A prática pedagógica escolar tem como foco o aluno ideal (inexistente) e não aprendeu a lidar com aqueles que se colocam acima ou abaixo da média.
Dessa forma, afirma Nádia Bossa, em seu livro “Fracasso Escolar: Um Olhar Psicopedagógico”, o insucesso do estudante pode ser entendido como o fracasso da escola em lidar com o diferente, a diversidade. Não dá para pensar numa resposta única, numa sala de aula que abriga de 30 a 40 sujeitos singulares. Problemas de aprendizagem em matemática, por exemplo, podem estar ligados ao medo, à ansiedade, a uma auto-imagem desfavorável. Nesse sentido, a escola precisa repensar sua prática educativa, buscando alternativas e estímulos que levem em conta os fatores emocionais. O suporte emocional para uma criança tímida e insegura, pode levá-la a acreditar em si mesma, entrevendo, além de suas dificuldades, suas possibilidades, que podem ser bem mais amplas. Aprender implica colocar em jogo qualidades e capacidades intelectuais e psíquicas. Aprender se coloca como um desafio. Confrontada com o desafio e com o fato de “não saber”, a criança se retrai, sentindo-se incapaz de inventar estratégias para o enfrentamento de tal desafio.
Para o psicólogo francês, Serge Boimare, o trabalho com essas crianças precisa partir de um outro lugar, que não o plano pedagógico costumeiro, centrado nas lacunas, no seu código linguístico, na sua falta de referência e método. A proposta de Boimare é a construção de um cenário, que pode ser via literatura, onde o aluno possa projetar a figuração de seus medos e inquietações, que comumente estão ligados à busca da identidade, aos conflitos de gerações, à sexualidade, à busca de seu lugar no grupo e na sociedade.
É nesse sentido que os heróis da literatura podem ser modelos. Os heróis da literatura vivem situações dramáticas, ameaças e perigos de toda sorte. E são capazes de sobre eles exercer controle, até superá-los, servindo-se da reflexão, de funcionamentos intelectuais. Não se trata de uma fuga da realidade, adverte Boimare, mas de um recuo estratégico, de um descolamento provisório da realidade, para buscar elementos da cultura que representem, que deem corpo e voz, aos medos e inquietudes de crianças e jovens. E o grande desafio dos pais é acertar na escolha. Ao invés de uma escola pautada pela lógica do mercado, a escolha precisa recair numa escola que saiba lidar com o desafio da diversidade: cultural, étnica, social. É preciso subverter o tradicional currículo e apostar numa abordagem pedagógica interdisciplinar, inclusiva, e relevante. Que dê conta de um mundo mais humano e feliz. Para todos. Sem exceção.

*Psicóloga clínica – shyrleypimenta@gmail.com

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