J. Carlos de Assis*

A sociedade brasileira está rastejando aos pés de uma quadrilha que assaltou o Planalto e colocou o país a serviço do grande capital e das multinacionais do petróleo. Isso era sabido pelos “entendidos”, mas agora ficou claro na medida em que, para subsidiar o diesel, o Governo corta recursos sociais em larga escala, inclusive os de saúde e de educação. Onde está a reação social? Onde as centrais sindicais? Onde os sindicatos do setor público? Todos não passam de um bando de covardes. Estão a milhas de distância do valor de um caminhoneiro.
É verdade que as frentes – Brasil Popular e Povo sem Medo – tentam se mobilizar. Contudo, elas não tem estrutura própria. Tiveram pouco eficácia na época do impeachment e promoveram uma reação pífia à imposição pelo Governo da reforma trabalhista. As Centrais são diferentes. A maior delas, a CUT, saudosa criação de Lula, tornou-se uma estrutura burocrática com sindicalistas de carreira, temerosas de perder privilégios. Na ânsia de manter o imposto sindical, vendeu a Temer a reforma trabalhista.
Por aí não se espera muito. O país se derrete numa crise de proporções ciclópicas e os caminhos de reestruturação, essencialmente simples, estão bloqueados pelo Planalto e por um conjunto de bandidos que ocupa o Congresso Nacional como cidadela por onde partem os assaltos ao setor público. Se Temer é um assaltante, que dizer da linha sucessória, Rodrigo Maia, Eunício Oliveira e Carmen Lúcia, esta que esconde sua homossexualidade no cabelo emaranhado e no palavrório empolado típico dos contraditórios ministros do Supremo.
Se a sociedade organizada não reage ao esbulho do Governo, teremos que esperar a mobilização espontânea das massas. Quase conseguimos. A greve dos caminhoneiros, como já escrevi, foi de fundo essencialmente econômico, mas se desdobrou como fato político. Contudo, por ter fundo econômico, perdeu força na medida em que suas reivindicações básicas foram atendidas. Entretanto, a situação concreta de grande parte da sociedade é tão precária que não é difícil prever mobilizações espontâneas, fora das estruturas sindicais.
Tenho percorrido shopings: são dezenas, às vezes centenas de lojas fechadas. Mesmo nas faixas mais populares de botecos a freguesia desapareceu. Os circuitos de arte estão vazios, estes principalmente por causa da insegurança. Ninguém ousa andar na cidade depois de 10 da noite, às vezes antes disso. A miséria campeia. O desemprego está na rua. A recuperação do PIB é uma falácia. A imprensa esconde essa situação, cumprindo o papel criminoso de manipuladora da opinião pública, a serviço do neoliberalismo.
É preciso derrubar o Governo neoliberal, nada menos que isso. E estamos muito pertos desse objetivo. É que o Governo neoliberal exagerou na dose e expôs seus limites, como ocorreu na greve dos caminhoneiros. Contudo, sem a retomada da mobilização, é impossível avançar. As bases têm que explodir as estruturas superiores de sindicatos e outras entidades trabalhistas, como Lula fez em 1978. Recuos como os dos petroleiros, intimidados por multas judiciais, são desmoralizantes. Multa maior o Governo neoliberal está impondo ao conjunto da população brasileira.
Entretanto, é possível apontar uma janela de esperança para o povo. Tão logo nos livremos dessa corja neoliberal, reconstruiremos a economia, promoveremos rapidamente uma retomada do emprego e o aumento do PIB. Não é promessa vã, a história está do nosso lado. Quando, na década de 30, os governos liberais foram destituídos nos Estados Unidos e na Alemanha, em poucos meses esses países entraram num processo rápido de recuperação econômica e do emprego. Podemos tranquilamente fazer o mesmo percurso.

*Professor de Economia e jornalista. Autor dos livros: A Chave do Tesouro: Anatomia dos escândalos financeiros: Brasil, 1974-1983; Os Mandarins da República: Anatomia dos escândalos na administração pública, 1968-1984; A Dupla Face da Corrupção e Os sete mandamentos do jornalismo investigativo.

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