Ana Maria Coelho Carvalho*

Gosto de escrever textos divertidos para alegrar o leitor. Por exemplo, comentando um vídeo que recebi. Nele, uma mulher de uns 30 anos, bem morena, rosto redondinho, lábios carnudos e bem maquiada, falando indignada, séria e com voz cristalina, mais ou menos assim: “ôu, esse trem de homem malhado não presta. Ele só te chama pra tomar açaí. O problema é que ele paga o dele e eu pago o meu. E tem mais, é só açaí com banana, senão engorda. Ele fica vigiando pra ver se a gente vai colocar leite condensado e leite em pó, e nem é ele que vai pagar. Hoje o que eu gosto é de homem barrigudo e gordinho, são os melhores que se tem. Ele te chama pra tomar uma e toma todas. E você pode pedir porção de batata com queijo, mandioquinha, peixe, torresmo. Quando você fala que vai embora, ele chama pra tomar a saideira. Depois paga tudo e ainda te leva em casa. Hoje tá na moda é homem gordinho. Quando vejo homem sarado eu corro”.
Eu ri muito desse vídeo, principalmente porque adoro açaí com leite condensado e leite em pó. Lembrei-me de um texto da Danuza Leão, em que ela fica indignada quando vai a restaurantes e o garçom traz uma bola bem pequenina do seu sorvete preferido. Quanto mais caro o restaurante, menor a bola. Ela escreve sobre vários prazeres que a gente deixa de ter, com tantos deveres, tantas preocupações em acertar, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação. E aí a vida vai ficando sem tempero e sem graça. Termina pedindo ao garçom, entre outras, cinco bolas de sorvete de chocolate. Enfim, concordo com as duas de que é bom demais comer o que a gente gosta, sem sentimentos de culpa.
Mas daí fico pensando em tantas pessoas que passam fome, e não tem como deixar de escrever sobre as tristezas da vida. Como o caso de Dayana e seus quatro filhos. Li sobre ela numa matéria da Folha de São Paulo, de 15/02/2018. O repórter Anthony Faiola, do Washington Post, contou de sua visita ao maior orfanato da Venezuela, em Caracas. O pátio era uma pista de obstáculos de crianças abandonadas. A assistente social que o acompanhava ia explicando sobre as crianças. Passou por ele um menininho robusto em um triciclo, apelidado de “El Gordo”, mas quando foi deixado no orfanato meses atrás era pele e osso. E a menininha de vestido florido, que quase não falava mais. A mãe a tinha abandonado em setembro em uma estação de metrô, com uma bolsa de roupas e um bilhete suplicando que alguém a alimentasse. Centenas de pais têm feito isso na Venezuela, onde a fome e a miséria crescem sem parar. Não têm como alimentar seus filhos e os estão entregando. Não porque não os amem, mas porque os amam (quer coisa mais triste?). E os bebês, que antes eram facilmente adotados, não o são mais, pois os pais adotivos não conseguem arcar com as despesas. No país, cerca de 71% das crianças com menos de cinco anos não têm alimentação adequada. A fome obriga as famílias a fazer escolhas dolorosas, como no caso de Dayana, 28 anos . Em novembro passado ela perdeu seu emprego de faxineira e entregou seus dois filhos menores para o orfanato. Como a entidade não aceita crianças maiores, ela ainda está tentando alimentar o de 8 e o de 11 anos em casa. O orfanato oferece a ela leite, macarrão e sardinha, mas não é suficiente. Contou ao repórter que depois do jantar, os meninos pedem: “Mãe, quero mais”. Mas ela não tem mais nada pra dar a eles.
Acho que eles iriam adorar ter como sobremesa açaí com leite condensado ou sorvete de chocolate.

*Educadora – Uberlândia – MG

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