Marília Alves Cunha

Está na varanda da velha casa, sentada em uma confortável cadeira de braços. Almofadas coloridas acomodam sua cabeça, alvura de cabelos brancos a contornar a face desbotada, vincada, marcada por uma profusão de sulcos. As mãos se cruzam nervosamente, de repente se jogam para o ar, como se quisessem agarrar algo, se entrelaçam de novo, nervosas… A roupa bem arranjada lhe cai bem. Uma gola de crochê volteia o pescoço, aparenta um quadro antigo. As pernas pendem sob as roupas, sem forças, meio mortas, quase mortas. Olhar perdido, sem vida, sem luz. Algum lugar do passado, nenhum lugar, quem sabe?
Onde ficou a menina esperta, de cabelos saltitantes e olhos curiosos, atrevidos? A menina cujas pernas travessas percorriam céleres caminhos, muros, escadarias, telhados e que em sonhos escalavam o céu e chegavam ao arco-íris?
Onde ficou a moça elegante, jorrando hormônios por todos os poros, gestos e voz deliberadamente macios, coração aberto a amores e paixões, ansiosa pela entrega, mistura de pureza, sexo, liberdade, prazer, temor, tudo se revezando como uma revoada na cabeça da linda donzela?
Onde a esposa amorosa, que se entrega mais do que recebe num mundo cheio de machos, condutora e guia, sábia no silêncio e na palavra mágica que de repente clareia tudo em volta?
Onde a algazarra dos nascimentos, a casa regurgitando pequeninos, mulher parideira povoando o mundo, barriga sempre grande a se empurrar pela casa, olhar mais doce de mãe a iluminar a vida, santa boa vontade e coragem, bem vindos todos aos braços aconchegantes.
Ninho vazio, foram-se. Pelos cantos restam lembranças: retratos, um berço descascado que já balançou muita gente, brinquedos esquecidos aqui e acolá, aquele vaso de “comigo ninguém pode” um dia plantado com fé, o inestimável quadro da Santa Ceia, presente de casamento.
Ela, cujo corpo resiste na varanda da velha casa também foi embora. Não se sabe para onde. Talvez esteja tentando aprisionar algumas estrelas com as mãos ou, quem sabe, procure o arco-íris da infância. Quem sabe? Algo apagou seu olhar, algo emudeceu sua voz, algo parou seu gesto, algo a levou para longe… Quem sabe?
Minha homenagem a todas elas, que não podem mais se expressar.

Educadora – Uberlândia – MG

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