Antônio Pereira da Silva*

Quando cheguei a Uberlândia, em 1961, havia uma fauna humana pitoresca na cidade. Desses tipos sociais, um que me chamou logo a atenção, foram os “desinquietadores de famia”. Eram caras que se preocupavam em conquistar mocinhas virgens ou mulheres casadas. Os conquistadores de mocinhas eram da baixa classe média. Rapazes que se compraziam em espalhar por aí: “tirei a fulana, tirei a sicrana”. “Tirar” era sinônimo de desvirginar. Era um processo lento, o cara se aproximava da menina, geralmente de família humilde, envolvia, namorava, enganava até a conquista total. Realizava o que queria e a abandonava. Sem qualquer constrangimento e ainda saia espalhando: “Tirei a Mariazinha…” Essas meninas tinham um futuro sombrio: iam para o meretrício ou sumiam no mundo. Os pais não as queriam mais em casa.
O outro tipo geralmente situava-se numa classe social mais alta. Aparentemente pessoa respeitável. Ficava de olho em senhora casada. Quando sabia de alguma rusga mais pesada em casa, apertava o cerco, era quando a fidelidade estava fragilizada. Um amigo certa vez me contou que encontrou um desses figurões rodeando uma residência: “Que cocê tá fazendo aqui, fulano, toda hora te vejo pra lá e pra cá.” Respondeu: “O João andou brigando com a Maria… tô de olho nela…” E destruíam lares e lares. Sei de muito casamento desfeito naquela época por conta do “desinquietador”. Conquistada, a presa era abandonada. Ficava falada. De vez em quando, algum marido ofendido, passava fogo no conquistador, ou na mulher.
Como no caso do conquistador de mocinhas, o desmanchador de família também tinha por objetivo, espalhar seu feito. Lembro-me de uma crônica do Clarimundo Campos contando a novela de uma conquista. O conquistador, seu amigo, rodeou, rodeou a vítima até conseguir. Quando se viram sozinhos num quarto, ela pediu: “Por favor, você não diga nada pra ninguém.” O cara, que já estava nu, enfiou as calças de novo e saiu resmungando: “Se não puder contar, também não quero!”
Duas observações para reflexão: primeira – dois famosos desinquietadores, tinham vivido experiência semelhante em casa, ou seja, foram traídos pela esposa; segunda – por incrível que pareça, as mulheres casadas conquistadas parece que gostavam e até procuravam aventuras com os garanhões da cidade. Assim como para eles era glorioso pegar mais uma mulher casada, para elas também era charmoso ter se entregado a um conquistador de fama.

*Jornalista e escritor – apis.silva@terra.com.br

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