J. Carlos de Assis

Suponha que você crie fantasmas e em seguida contrate exorcistas para acabarem com eles. Esta é mais ou menos a situação de países que pagam agências de risco para os avaliarem. Trata-se de uma das coisas mais estúpidas que podem acontecer nas relações financeiras internacionais porque as agências de risco, desde que o FMI e o Banco Mundial perderam parte de seu poder de pressão política, não são propriamente avaliadoras de crédito, mas sim avaliadoras de políticas econômicas dos países.
É uma intromissão direta desses agentes privados – principalmente Standard&Poors, Moody´s e Fitch – na vida interna dos países. Uma violação consentida de soberania. Pessoas de boa fé podem acreditar que se trata realmente de avaliação técnica de crédito mas o propósito profundo é alinhar os diferentes países, e em especial aqueles em desenvolvimento, ao famigerado Consenso de Washington e às políticas neoliberais no plano fiscal-monetário e em outras dimensões macroeconômicas, como s plena liberdade dos fluxos de capitais.
Se há dúvida sobre isso, basta examinar a cobertura que a Globo deu ontem à notícia de rebaixamento da nota da Standard&Poors para o Brasil. Foram três longas interseções intercaladas ao longo do noticiário. Nenhum outro assunto mereceu algo sequer parecido. E a pergunta que se faz é: Por quê essa cobertura exaustiva? A quê se deve isso se a televisão é um instrumento de comunicação de massa, e há poucas razões para acreditar que a esmagadora maioria dos telespectadores da Globo nem sabe o que é agência de risco?
Sabem a razão da extensa cobertura? A Globo está pouco se lixando para risco-país, mas se mostra interessadíssima na reforma da Previdência, de interesse reconhecido para o grande capital financeiro interno e mundial. Ela então cria um fantasma, o escândalo em torno do rebaixamento da nota, e em seguida apresenta o exorcista: A reforma previdenciária. Aí tudo encaixa, porque é também o discurso de Michel Temer e Henrique Meirelles. Sem reforma da Previdência, dizem eles, o rebaixamento da agência nos levará ao fim do mundo.
Para um governo mergulhado na mentira e na hipocrisia, e com sabidas relações com a canalha financeira externa, não seria difícil conseguir com a agência de risco dar uma marretada na nota para supostamente melhorar seu perfil de crédito. Se fizesse isso perderia a oportunidade exigir do Congresso a reforma da Previdência. No cardápio vai junto a queda de inflação – obviamente um fenômeno de demanda, devido ao alto desemprego e queda de salários -, que também se apresenta como motivo para a reforma previdenciária.
Um governo futuro, comprometido com a soberania nacional e a defesa dos interesses populares, saberá escapar da armadilha das agências de risco ocidentais. Bastaria consolidar suas relações com o sistema financeiro asiático, aprofundando as conexões com o Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos BRICS, e outros grandes bancos chineses. A China tem uma agência de classificação de risco, Dagong, bem ancorada em informações técnicas. Tenho certeza de que recomendaria crédito ao Brasil sem se meter na política econômica interna.

*Professor de Economia e jornalista. Autor dos livros: A Chave do Tesouro, A dupla Face da Corrupção e Os sete mandamentos do Jornalismo.

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