Shyrley Pimenta*

Não gosto dos dias que antecedem o Natal: ruas apinhadas, pessoas andando apressadas, se acotovelando nas lojas, disputando a última novidade em brinquedos. Também não gosto da noite de Natal: a mesa abarrotada, todos falando ao mesmo tempo, se empanturrando de comida e de bebida. Lá pelas tantas, alguém se lembra de tocar “Noite Feliz”. É a gota d’água. Muitos não resistem e a choradeira começa. Quase sempre há também um filme piegas na televisão, o que só faz engrossar o caudal das lágrimas. Respiro aliviada quando, enfim, posso acomodar meu cansaço entre lençóis e travesseiros e passar a limpo os acontecimentos da noite. Uma sensação de culpa me invade: tudo aconteceu como manda o figurino, mas não me sinto feliz. O que é a felicidade, afinal? Aprendo, com o filósofo Mário Cortella, que a palavra “felicidade”, em grego “eudaimonia”, significa “alguém que é impulsionado de dentro para fora”, movido por Daimon, uma divindade protetora que habita o interior de cada um de nós. O termo correspondente em latim é “felice”, que tem a mesma raiz que fertilidade, o que leva Cortella a concluir: somos felizes quando somos fecundos. O filósofo fala da necessidade de se instaurar na sociedade as possibilidades de felicidade, o que implica afastar do cotidiano o diabólico, o adversário, aquele que divide, separa, fragmenta e desune. E trabalhar em prol das estruturas simbólicas: aquilo que agrega, partilha, une, faz caminhar na mesma direção. Há que repartir a vida. O que se torna quase impossível, diz ele, num modelo econômico como o nosso, sustentado pelo lucro, pela ganância ou, ultimamente, pelas benesses governamentais. Para os budistas, a felicidade se confunde com o “nirvana” – um estado de paz que advém do conhecimento de si, da sabedoria. Para a monja budista Coen, quando me pergunto “quem sou eu?”, inauguro uma revolução interna. Somos mais, diz ela, que nosso nome, nosso gênero, nossa profissão. Não sabemos, afinal, quem somos. Reconhecer isso é abrir espaço para o vazio, um vazio que implica todas as possibilidades. E para a Psicanálise, qual seria o lugar da felicidade? Afirma o psicanalista Tales Ab’Saber que, para a Psicanálise, a felicidade é um lugar tênue, uma mediação, uma solução de compromisso. A Psicanálise é a disciplina do conhecimento das contradições. Se Freud diz que o homem é movido pelo princípio do prazer, afirma também, na segunda tópica, o seu avesso: somos impelidos pela pulsão de morte. Para Ab’Saber, a doença mais grave da nossa época é a “normopatia”: a adaptação à cultura capitalista do excesso. É a ausência de inquietação. Onde há inquietação é possível uma felicidade dialética, que inclui, naturalmente, o polo oposto: observar o horror, com ele não se confundir, a ele opor-se. Para habitar esse mundo é preciso ser crítico, estar atento a seus aspectos dissociados, fazer frente às suas estruturas diabólicas. Portanto, a questão é, para a Psicanálise, aguentar a dor de existir. E a única forma de suportar a dor é conhecê-la. Mas não basta compreender e suportar a dor. Há que dar-lhe um sentido, uma nova configuração. Felicidade pode ser isso. Nada mais que isso.

*Psicóloga Clínica e Educadora – Uberlândia – MG

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