William H Stutz*

Querido Papai Noel, eu sei e imagino seu espanto. Tem muito tempo que não penso no senhor. Afinal deixei de acreditar em sua existência. Também, sua imagem estava associada apenas ao comércio e consumo. Judiaram. Como acreditar em conversa de garoto propaganda vendendo de pernil a carro de luxo?
Tormento de vitrines cheias de “neve” e musiquinhas chatas pra caramba, tocando sem parar. Isto, em um país como o nosso. E ainda pensar que o Natal “era festa pagã, Natalis Solis Invicti ou “nascimento do sol invencível”, em homenagem ao deus persa Mitra e as comemorações aconteciam durante o solstício de inverno, o dia mais curto e frio do ano”. Aqui cai em pleno verão escaldante tipo Rio 40º.
O cientista da religião, Carlos Caldas, nos conta que “Na Bíblia, o evangelista Lucas afirma que Jesus nasceu na época de um grande recenseamento, que obrigava as pessoas a saírem do campo e irem às cidades se alistar. Só que, em dezembro, os invernos na região de Israel são rigorosos, impedindo um grande deslocamento de pessoas.
Também por causa do frio, não dá para imaginar um menino nascendo numa estrebaria. Mesmo lá dentro, o frio seria insuportável em dezembro”

Assim a coisa se transforma em conversa pra boi dormir.

Mas, deixa isso pra lá, meu negócio é com o senhor.
Deixei sim de acreditar. Porém, não se sinta só. Deixei de acreditar em um monte de outras coisas e não estou me referindo a fadinha dos dentes, ao coelho da páscoa ou ao Tutu Marambá ( aquele do “…não venha mais cá que o pai da criança manda te matar…”).

Perdi crença em gente humana, conto nos dedos aqueles que trazem confiança. Passei a desacreditar na bondade das gentes, na gratidão, no companheirismo, na benevolência. Bicho gente benfazejo, compassivo, na maioria quase absoluta dos que se diziam amigos. Passei a duvidar , em amores eternos. Tornei-me cético e infeliz, estou em fase de convalescença, quase curado pode apostar de algumas dessas descrenças.
Salvaram-me os bichos em particular os miúdos, as árvores, os ventos, as chuvas e outras tantas demonstrações do Criador. Os cantos suaves colorindo amanhecer e fim de dia. Restaram poetas, margaridas, seresteiros, contistas, girassóis.
Jóias raras beija-flor, corujas atentas, canarinhos-da-terra.
Manifestações estas de que nem tudo está absolutamente perdido.
Papai Noel, me desculpo pela longa ausência, mas a vida é assim e Rosa esculpiu em letras com maestria:

“O correr da vida embrulha tudo./A vida é assim: esquenta e esfria, /aperta e daí afrouxa,/sossega e depois desinquieta./ O que ela quer da gente é coragem”.

O ano foi difícil 2017 não vai ser bem lembrado, além do assédio moral sofrido e doído que deve continuar no ano vindouro, foi um ano de malvadezas sem fim. Mas acho até que mesmo assim me comportei bem, não maltratei ninguém como é de minha criação, relevei as maledicências e até os acontecidos pois sei que, eita que hoje estou para citações dos mestres, nas palavras do engenhoso e Mario Quintana: ” Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão…/ Eu passarinho!”. Retribui o mal com perdão, quase sempre, pois não sou santo nem rapadura nem de ferro.

Assim já que fui quase bonzinho vou deixar minha botina mateira do lado de fora na noite de Natal e, se pela manhã, ao acordar, encontrá-la molhada de um sereno perfumado/colorido terei certeza de que meus pedidos foram ouvidos. Quanto a atendê-los, não se preocupe, sei o quanto é uma pessoa ocupada. Faça no seu tempo. Só quero de volta a crença nos homens e o renascimento da fraternidade. Apenas, e tão só, um mundo mais justo, mais perfeito para todo ser vivente. Sorrisos, abraços, beijos apaixonados. Que Ele e seu Pequeno Menino sejam a nova Estrela que tanto esperamos para curar o planeta e deixar viver em plenitude tudo e todos que aqui se entrelaçam, em generosa conexão harmônica. Um dividir sem fim de seiva pura e vital.

Todos os dias botarei reparo e pelo resto de minha vida, a cada pequeno sinal de mudança, avistarei feliz seu dedo e o Dele mudando para melhor o rumo da vida.

Antes que me esqueça, desejo a você e a todos viventes Boas Festas e muitos anos de realizações, principalmente muita paz, harmonia e serenidade.

*Veterinário e escritor

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