William H Stutz*

Quando foi a última vez que você olhou para o céu à noite? Não para procurar avião, não para ver foguetório em festa de ano novo, não apenas pra ver se vai chover para poder escolher roupa. Quando foi a última vez que você admirou estrelas, um por do sol de tirar o fôlego, um arco-íris, um barulhento bando de maritacas, o vôo silencioso de garças ou para observar, com atenção absoluta, gavião a caçar, e às vezes, ainda a fugir em disparada de mãe beija-flor ou Bem-te-vi atrevido? Me conta, quando foi?
Por essas e outras, apesar de olhar sempre para o alto, é que procuro o silêncio, o encanto e a paz de um lugar onde o tempo é o que menos importa e o céu reina absoluto, dono de todas as atenções. É lugar assim que quero para mim quando puder dar um tempo, quando criar coragem de deixar meus bichos de lado por um prazo e cuidar da vida, da minha vida.
Busco calma de uma varanda onde as portas não têm tramela, casa aberta para praça sombreada e calma onde reina o ócio de bancos vazios, sempre a esperar gente que não vem. É para lugar assim que quero ir. Onde possa escutar tropel de cavalos, o tilintar de arreios e adornos de arreata, em passo compassado e firme.
Onde, embalado ao som dos galos da madrugada, possa deixar memória solta e, em mesa bem talhada, repleta de histórias, bem de frente a ampla janela a respirar vento, poder tranquilo tamborilar os dedos por teclado e me dedicar em contar o que vi, o que pensei que vi e o que gostaria de ter visto. Poetar sem ser incomodado, criar histórias longas e repletas de detalhes, cópias de vida vivida, observador do passar na janela, dando rumo incerto a tanta coisa certa.
Ouvir cão latir longe e poder imaginar motivo. Bem dizer pios de coruja perdida, sem pouso. Tornar-me capitão das letras agrupadas em trincheiras e campos abertos, escondidas em matas fechadas repletas de sacis e caiporas. Dono do próprio nariz e relógio, fazendo minha hora, ao ponto, mal passada, cheirando tempero e lenha de fogão.
Nunca perder concorrido jogo na quadra pública para o qual vem gente de toda banda, jogo esse anunciado em rádio e comentado por todos. Amigos, parentes, agregados ou não, se juntam em algazarra de passarinho para futebol perneta, em desfile de feliz falta absoluta de preparo físico. Em sábado antes do almoço, vencer é agüentar dois tempos sem que os bofes venham ao chão, sem ataques ou refluxos. Queimação. O importante é ali se deixar ficar e, após o suador da peleja a melhor parte: encontro no boteco para desespero das companheiras, que de pirraça, ameaçam apagar churrasqueira e em silencioso protesto se juntam aos suados maridos como a mostrar-lhes culpa que não existe.
Onde é esse canto? Pode ser aqui encostado, pode ser uma Martinésia, um Prata, um sonho. Uma praia em Prado ás margens do rio Caravelas. Pode se a ilha da Cassumba onde a observação dos bichos da restinga nunca cansa. Pode ser beira mar, beira rio ou pé de serra, mas no nesse exato momento, mesmo sem conhecer de corpo presente, mas viajando em narrativas de amigos, hoje meu paraíso pensado tem endereço, tem nome, tem história e se chama Abaeté dos Mendes, lá pelas bandas de Rio Paranaíba.Um lugar abençoado e protegido de nossa imensa e variada Minas, uma catedral viva em harmonia plena com o bem viver. Ainda vou lá, me aguardem.

*Veterinário e Escritor

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