William H. Stutz*

Essa vida volta e meia nos apresenta cada mistério. É tanto fato estranho que até Deus duvida. E olha que não estou me referindo a fantasmas, gnomos ou fadas, não. Observo fatos do cotidiano. O sobrenatural nosso de cada dia, acontecidos que se repetem bem debaixo de nossos narizes. Um desses grandes arcanos domésticos diz respeito aos cabides. Isso mesmo, cabides, esses de pendurar roupas.
Certa feita sugeri em um conto que, volta e meia, os inanimados ganham vida própria. Tive uma máquina de lavar roupas que era assim, nós a chamávamos carinhosamente de Daiane dos Santos, pois tinha complexo de ginasta, e até o duplo carpado twist esticado, especialidade de nossa querida atleta, ela, a máquina, aprendeu a dar.
Depois dela, passei a observar os objetos de casa com outros olhos e tenho a convicção de que, como nos desenhos, em alguma hora do dia ou da noite, longe de olhos, eles ganham vida e aprontam das suas.
Minha mais recente experiência diz respeitos aos tais cabides. Estes, como todos sabem, mesmo possuindo as mais variadas formas e serem compostos por materiais diversos têm, é claro, o mesmo objetivo e função. Lá em casa, além dessa finalidade são largamente usados para abrir janelas de banheiro, uma vez que alguns não foram agraciados com estatura muito elevada. Temos cabides de várias, digamos, castas e cada uma se comporta à sua maneira. Temos aqueles mais frágeis que, à primeira vista, quando são comprados, detêm aparência de robustos. Ledo engano, à primeira calça jeans mais pesada literalmente abrem o bico e a pega do guarda-roupa deixa de existir, desmontam como pipas rasgadas por vento forte bagunçando e amarrotando tudo.
Temos aqueles cujo plástico imita vidro ou cristal, são mestres em quebrar a haste do meio e, aí, passam a servir para dependurar camisas.
Quando morávamos na roça, um mestre oficial em marcenaria italiano, Seu Pedro Talarico, caprichosamente fez, a nosso pedido, vários cabides de madeira. Pequenas obras de arte, pois eram entalhados em peça única de madeira, sem emendas. O único defeito, se é que assim se pode chamar, eram os ganchos que colocamos, com o peso perdiam a rosca e despencavam. Na realidade dever-se-ia utilizar tiras de trapos para amarrá-los ao cabideiro, a ideia dos ganchos foi nossa. Até hoje guardamos essas raras e belas peças.
Os cabides passaram a fazer parte daqueles que têm vida própria.
Já notaram que, sempre que alguém precisa de cabides, eles desaparecem? Na hora de passar ou lavar roupa, sempre que você precisa não os encontra em número suficiente? E não adianta comprar mais não. Ao chegar em casa com dois ou três pacotes de cabides novos, temos a sensação de que nunca mais vamos ter que nos preocupar. Mas qual, uma semana depois para desespero nosso, onde por Deus se meteram esses monstrinhos? Sempre faltam e muitas peças de roupa ficam aguardando vaga, tal e qual restaurante em São Paulo ou estacionamento em zona azul.
Esse é um mistério que guardo para quando aposentar. Descobrir o destino, o rumo que esses caras tomam. Infelizmente, em nosso querido Brasil, o único tipo de cabide que não acaba, nem some, aliás, como ratos se multiplicam, são os nefastos cabides de emprego. Estes, para tristeza da nação, por mais que queiramos, não damos conta de fazê-los desaparecer. Não é incrível?

* Veterinário e Escritor

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