William H. Stutz*

Fico encantado, ou pasmo, não sei, só de me imaginar nas situações descritas por uma grande amiga virtual que adora a urbe, os congestionamentos, as filas de restaurantes, os shoppings lotados enfim a confusão das grandes cidades. Para ela a vida nas cidadezinhas se resumiria a jogo de damas em praça pública.
Amiga, cidadezinha (meu sonho daqui a muito pouco tempo) não é só jogar damas, gamão ou xadrez em mesa de concreto em banco de praça, não é não.
Partindo daí tem a própria praça, imagino imensas e frescas sombras de árvores centenárias onde pela manhã a algazarra dos passarinhos ajuda a acordar as gentes, vejo ainda esta mesma praça cheia de crianças correndo para a padaria ou para a escola sob o olhar atento daqueles sentados junto aos tabuleiros: ” Aquele menino é de fulano, arteiro que só, vive a roubar carambolas lá em casa”.
Onze horas religiosamente, o comércio fecha para o almoço, até os restaurantes assim fazem. Exceção por conta de alguma venda onde o dono, com prato de ágata branco descascado e com friso azul, come de colher saboroso arroz, feijão e carne de lata feita ali mesmo por sua mulher em velho fogão de lenha, pois a vendinha está junto à casa deles. Ah, tem também taioba refogada com pimenta bode, angu e quiabo.
As ruas de pedra evocam antepassados tropeiros e suas boiadas imensas que, naquele tempo cruzavam a rua da praça da matriz, aquela dos tabuleiros. Agora mais não, fizeram um corredor ao lado da estrada por onde as raras boiadas são tangidas, exigência do padre, atrapalhava a missa.
Tardezinha, muita gente chegando da roça, outros do mar, esqueci de dizer que cidadezinha fica beira-mar, e a algazarra agora é dos mais velhos contando acontecidos do dia.
Anoitece. Muito o que fazer. Sentar-se a ler um bom livro em varanda bem em frente à praia, recebendo a perfumada brisa do mar, caminhar na areia e deixar a cabeça voar a visitar outras galáxias, sentar-se com a companheira, com amigos, ou só, em um bar de cobertura de palha com os pés na areia e tomar uma cervejinha gelada acompanhada de delicioso peroá frito, pedir para desligarem o rádio para poder ouvir o eterno e cadenciado quebrar das ondas, isso em plena terça-feira.
Olhar para o céu e não se espantar com as milhares de estrelas, afinal está familiarizado com elas, são tuas amigas e te apontam nortes e contam histórias.
Chegar em casa e sempre encontrar o portão baixinho e de madeira aberto, assim como as portas das varandas dos alpendres, e as imensas janelas. Abertas, sempre abertas, dia e noite. O lá fora integra o lá dentro, coisa só, meu jardim é o mar, meu quintal a mata e as montanhas da serra.
No dia seguinte, banho de cachoeira, descarrego, culto respeitoso a Oxossi dos nagôs, Agbê dos jejes, Congombira dos bantos. Filho de Iemanjá, irmão de Ogun e de Ossain, sempre de Ofá em punho a proteger os bichos, a mata.
Da floresta para praia outra vez, agora toca a ajudar a puxar o arrastão da manhã, rir com os amigos, pé na areia alma leve e limpa. Rede toda na areia, recolhe um punhado de camarões, dois linguados para o almoço, e uma estrela do mar que em gesto rítmico e manso devolve feliz à segurança das águas.
No fim de semana filhos devem chegar para as férias, vêm com namorados, toca abastecer as geladeiras, a arejar os quartos e vestir as camas com lençóis cheirosos.
Ficam poucos dias, depois de semana ou pouco mais acham um tédio, sentem falta dos shoppings, engarrafamentos, das filas nos restaurantes.
Nem por isso deixamos de tanto amá-los, de tão felizes ficarmos quando aqui, em nossa modorrenta vila nos visitam e compartilham alegres de nosso tédio.
Minha mãe costuma dizer que existem dois tipos de gente: os terráqueos e os espaciais. Os terráqueos são aqueles apegados à terra, à natureza, adoram tudo que é simples e conseguem ver beleza em pequenos vôos de borboletas e em tempestades tropicais. Os espaciais não se adaptam ao planeta, sentem sempre uma saudade, uma falta de alguma coisa que não conseguem explicar, não se dão bem com as coisas daqui, insetos os incomodam, adoram o conforto extremo e a tecnologia pura os atrai sobremaneira. Vivem em eterna angústia e não sabem nunca o motivo, insatisfação permanente e por vezes dolorosa.
São descendentes diretos e mais apurados geneticamente de nossos colonizadores extra-terrestres, povo super evoluído que aqui deixou sementes ao se juntar aos nativos.
No meu caso, acho sou fruto de um choque de sangue, sou mestiço, com o lado terráqueo dominante, a recessividade genética ficou para meu oculto lado espacial.
Repito sobre nossos filhos, sentimento extensivo aos amigos: Nem por isso deixamos de tanto amá-los, de tão felizes ficarmos quando aqui, em nossa modorrenta vilazinha nos visitam e compartilham alegres de nosso tédio. Tédio? Viva nosso tédio.

*Veterinário e escritor

 

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