Nada melhor nesse mundo do que amigos daqueles que você pode contar sempre, em qualquer situação ou embaraço. Conhecidos milhares, amigos poucos. Pois foi exatamente um amigo a me convidar para seu aniversário.
Sabedor do dia exato, botei algum estranhamento apenas no horário: meio do dia de uma bruta sexta-feira. Bom, pensei, assim seja, chego pouco mais tarde e saio direto do trabalho para lá almoçar em festa.

Feito. Cheguei com sol a pino, presente na mão e fome de anteontem, como cantou Chico. Não, não seria feijoada, mas churrasco e um suculento pernil assado.
Toco a campainha meio sem graça, pois a festa seria em casa de outro. Nada não. Logo fico sabendo que a festança seria sábado, ou seja, cheguei vinte e quatro horas adiantado. Tirando a vergonha passada ganhei foi muita boa prosa e disposição para ajudar no temperar pernil, o que na realidade não ocorreu. A irmã do agora amigo em comum o fez sozinha.

O ambiente da casa merece um detalhado descrever. Ficaria horas pormenorizando as belezas de uma ilha verde bem no centro da cidade. Quem está dentro se vê na mata, quem está fora nada vê. Muita planta e água de um azul infinito a jorrar de mina incessante. Passarinhos aos montes e, para meu deleite, uma colônia respeitável de morcegos, moradores permanentes da varanda. Morcegos polinizadores, mansos a fazer o eterno preservar e multiplicar da vida.

Ali ficamos a conversar e degustar saborosa cerveja até a boca da noite nos engolir mansa. Nada de acender luzes. Só no breu total estratégicas luminárias concederiam aspecto mágico ao frondoso jardim e à piscina.
Saí encantado esperando o novo dia.
Assim feito, sábado começou cedo naquele paraíso.
Boa música ofertada por outro amigo, mestre DJ de bom gosto inquestionável. O dia passava manso e divertido.
Todos sabem o resultado mais cedo ou mais tarde de uma cerveja. Isso, xixi.

Levantei tranquilo e fui ao banheiro para desbeber. Feito e aliviado fui lavar mãos. Aí meu caro, me deparei com a pia e sua torneira. Olhei bem para a dita sem entendê-la. Uma torneira será sempre uma torneira, por mais diferente que possa parecer. Não me fiz de rogado e levei a mão para abri-la. Convém contar que não era daquelas de torcer para direita ou esquerda. A manopla era reta.
Levei para um lado, nada. Levei para outro e que água que nada. Olhei para os lados já pensando no alívio de que não havia ninguém a me ver. Com olhos atentos me coloquei a observar aquele desafiador pedaço de metal, a me fazer de completo besta. Perguntar a alguém que sabe? Nunca! A gozação iria durar dias.

Não poderia ser passado para trás por uma simples torneira. Nem tão simples assim, cá prá nós. Desse modo o tempo ia ligeiro, até outro apertado à porta do lavabo bater. Era tudo ou nada. Impaciente, mas sem raiva, bati a mão naquele pedaço de metal a me fitar. Olha só! Água abundante a jorrar. O jogo era este. Para cima abria, para baixo fechava. Para cima e à direita água quente. O contrário, água fria.
Mãos lavadas e perfumadas saí à luz do dia como quem sabe tudo. Pensei no coitado do próximo a entrar. Ou seria só eu o dessabido?

Assim ficou mais uma aula de que pouco de quase nada sabemos. Precioso esse nosso viver.
De torneira lição, só para quem bem quer aprender, se assim não for vai-se em vazio e mãos sem lavar.

Para encerrar o prazeroso dia só mesmo um indescritível arroz com linguiça com direito a fantástica aula de culinária recheada de segredos dignos dos melhores chefs do mundo, caprichosamente produzido por outro novo amigo.

William H Stutz
Veterinário sanitarista e escritor

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